sábado, 24 de maio de 2014

Jafé, uma lenda viva

Matéria de 15 de Dezembro de 1997 (Edivaldo pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão).

 Jafé Mendes Nunes

Há cerca de dois anos, o jornalista Alfredo Menezes, do jornal O Estado do Maranhão, fez uma entrevista exclusiva com Jafé Mendes Nunes. Talvez o fato, para algumas pessoas, bastou como a última reportagem sobre o desportista, que muito contribuiu com o futebol de salão e o radicalismo maranhense. Mas ouvir ainda hoje elogios a esse profissional, amante inigualável do salonismo e bairrista aos extremos, nos deu mais vontade ainda de voltar a divulgar um pouco mais de sua história.

Jafé, natural de Peri-Mirim, morando em São Luís já na década de 40, esteve na cada de João Rosa, na Rua dos Afogados, como um dos que queria ver favorecida a mais nova modalidade praticada na capital, o futebol de salão. A paixão foi fulminante. Ninguém estudou mais a matéria, ensaiou jogadas, treinou gerações do que ele. O livro de regras era como bíblia, andava debaixo do braço e fazia parte das aulas que ministrava,

Se envolveu igualmente com o futebol. Chegou a ser presente na Liga do Tabocal, na Rua do Outeiro, que tinha cerca de 15 times. Não se fez de rogado e também montou o seu, o Santos e, logicamente, foi ser o técnico. O Santos participava do Campeonato da Segunda Divisão. Sentindo um grande orgulho da época, ele contou que foi treinador de feras como Canhoteiro, jogador maranhense que defendeu as cores do São Paulo Futebol Clube e da Seleção Brasileira por vários anos, apontado por muitos como o maior ponta-esquerda do futebol nacional. A amizade entre os dois era tão forte que, mesmo já famoso, Canhoteiro visitava Jafé todas as vezes que vinha a São Luís.

Início no rádio – Por volta de 1947, o radialista Douglas Tavares, filho de Gerson Tavares, dono da Rádio Ribamar, pediu para Jafé substituí-lo no programa “Momento Esportivo”. Começava outra trajetória, a de cronista, que tinha como pretensão divulgar o profissional e o amadorismo, restritos ao futebol, futebol de salão, voleibol e basquete, todos masculinos. Como não entendia e nem gostava do basquete, do vôlei, podia falar sobre essas modalidades, mas não com tanta ênfase quanto dava às ouras duas.

Sem causar ciúmes, a não ser no meio esportivo, Jafé conquistou uma audiência muito particular. Com um jeito popularmente ousado, que agradava, falava de assuntos a serem abordados sem rodeios. Adorava dar notícias polêmicas. Às vezes inventava uma “bomba” e passava um a dois dias dizendo que ia divulga-la. Dando tempo para ser “fabricada”. Muitas vezes deu “furos”. Uma delas foi a transferência de Romildo, do Sampaio para o Moto, que muitos achavam ser mentira. Na transmissão de um jogo de futebol entre River e Sampaio, em Teresina, Jafé deu um “branco” para narrar a confusão que se armava em determinado momento da partida. Não ousou em dizer que estava “o maior c. de boi na área”. Para ele, a incomum expressão serviu como um teste de audiência. E até hoje tem gente que o ouviu falando no rádio e conta horrorizado (e ao mesmo tempo rindo) com o episódio repercutido.

 Equipe de futebol de salão do Atenas. Em pé: o massagista, Jafé, Lenar, Cauby, Alberto e um dirigente. Agachados: Djalma, Silvinho, Graco, Wilson, Belo e Jaiminho

 Árbitro parcial – Jafé, no alto dos seus 72 anos, pouco lembra de dados ou de fatos. Um ficou marcado em uma atividade que também exerceu, a de juiz de futebol. Passional extremista, bairrista como ninguém, ele interferia no resultado para dar a vitória ao time que torcia, mesmo em momentos importantes, quando deveria atuar com imparcialidade. Inconsequente, no jogo entre Maranhão e Amazonas, pela Copa Norte, no Estádio Santa Izabel, quando o time amazonense vencia por 1 a 0, ele disse em campo para Jacy fazer o gol com a mão, depois que o jogador Wilson de Moraes Van Lume cobrou escanteio e mandou a bola muito alta para a área. As palavras foram: “mete a mão que marco”. Jacy seguiu à risca as palavras do árbitro, Maranhão 1 a 1. O pior da história estava por vir. O jogo acabou empatado e na cobrança de pênaltis, apenas uma para cada time, se voltasse a ser empate a decisão iria para sorteio. O Amazonas perdeu sua chance. Terrível foi o cobrador maranhense, que colocou a bola para fora. Jafé, com o poder que o apito lhe conferia, disse que o goleiro tinha se mexido. Na segunda cobrança, novamente Terrível erra e Jafé dá nova desculpa para fazê-lo repetir a cobrança. Enquanto o jogador não acertou, ele mandou voltar. O Maranhão venceu o jogo, para revolta dos amazonenses, que chegaram a chorar copiosamente em campo.

Por uns anos a fio em Manaus, Jafé foi sinônimo de ladrão. Para ele, esse adjetivo pejorativo não significava nada. Mesmo assim, nunca foi por lá, com medo de alguma represália. O Maranhão, que passou pelo Amazonas com a “ajuda” de Jafé, enfrentou o Rio de Janeiro na outra fase se perdeu por 5 a 0 e 7 a 2. “Castigo de Deus”, muitos disseram, demonstrando um certo constrangimento pelo abuso de poder do juiz.

Jafé continuou sua trajetória de radialista, amante do salonismo e do futebol amador. Chegou a ser um dos fundadores e Presidente da ACLEM – Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Maranhão. Trabalhou por dois anos na Difusora, quando Raimundo Bacelar era o dono. Voltou para a Ribamar e encerrou a carreira da Educadora, onde ficou cerca de 18 anos até se aposentar, aos 53 anos.

Paixão pelo futsal – No futebol de salão, organizou inúmeras competições no Cassino Maranhense. Naquela quadra de cimento, viu passando craques, que ajudou a crescer. Os maiores, segundo Jafé, foram Djalma Campos e Biné. Quando o Costa Rodrigues foi inaugurado, por volta de 1968, ele transformou o ginásio exclusividade do futebol de salão. Continuou sua trajetória até mais ou menos 1977, sempre com a mesma abnegação. Sua forma de educar a garotada que o procurava era peculiar. Quando alguém não cumpria suas determinações em jogos-treino, ele dava gol para o outro time, como punição. E assim formou gerações, e assim fez sua história, que deveria estar nos anais, principalmente na Federação Maranhense de Futebol de Salão, modalidade que ajudou em muito a plantar e a regar semente. Como a entidade só foi fundada em Maio de 1980, o Apara trás” ficou esquecido. Muitos que o conheceram, acham a maior injustiça da história Jafé não ter reconhecimento do Estado e do município pelo grande trabalho que realizou, principalmente o de formador de gerações e mais gerações de atletas.

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