segunda-feira, 28 de abril de 2014

Zagueiro Terrível, ex-Sampaio Corrêa e Moto Club

Terrível, o quarto agachado, na Seleção Maranhense em 1956

Texto extraído da página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão (Edivaldo pereira Biguá e Tânia Biguá), de 05 de Outubro de 1998.

Quem pode imaginar um zagueiro central, 1m63 de altura, impor respeito a atacantes bem mais altos que ele? Durante os 18 anos que defendeu as cores do Sampaio Corrêa e Moto, Terrível mostrou que também nunca será documento para quem sabe jogar. E ensinou que um atleta pode se superar quando tem no sangue a raça de um guerreiro que gosta de vitórias.

Terrível nasceu raçudo. No Bairro Diamante, idos de 1940, ainda conhecido como Antônio Santos Sousa, ele deu os primeiros pontapés na bola. Por ser valente e gostar de desafios, optava em jogar na defesa. “Eu tinha prazer em não deixar os grandalhões fazer gols. Eu não abria pra nada neste mundo. Era casca grossa”, conta, orgulhoso. E foi nessa época que o pequeno Antônio ganhou o apelido de Terrível. Ele mesmo diz que era “errado”, um “perdido”. Fez fama nos bairros Matadouro, Baixinha, Camboa, Rádio e Diamante. “Saíamos em curriolas para jogar peladas nestes bairros. Não tinha essa de apanhar não. Partíamos para ganhar na bola e na porrada. Se houvesse dúvida de alguma coisa e isso gerasse confusão, eu não vacilava. Enchia neguinho de porrada, depois corria para o outro lado do mangue e ficava esperando as coisas se acalmarem”. Rindo bastante e passando a mão na cabeça, ele acrescenta: ‘Ô, tempo bom, senhor!”.

A fama de Terrível se espalhou rapidamente e chegou ao Bairro Fé em Deus, onde ficava a sede do Onze Amigos. Foi lá que aos 13 anos ele jogou pela primeira vez numa equipe organizada. Procurava imitar o ídolo Erasmo, zagueirão do Maranhão Atlético Clube, time pelo qual era apaixonado. Depois do Onze Amigos, Terrível foi para o Cristal, time da padaria Cristal, que ficava na Rua Grande e que tinha como patrono Mário Frias, dono da padaria.

E as histórias sobre Terrível continuam. Com 17 anos, ele tinha certeza que seria jogador de futebol profissional. Apurou a técnica de marcação, antecipação e cabeceio, se especializando em cobranças de faltas de longa distância e pênaltis, devido ao chute forte com a perna direita. Conseguiu aliar técnica, determinação tática e garra. Boas histórias sobre Terrível chegaram aos ouvidos de Ronald Carvalho, que em 1948 era Presidente do Sampaio Corrêa. Ele então resolveu contratá-lo para o Tricolor. “Quando fiquei frente a frente com o homem, balancei um pouco. Era o primeiro contrato. Assinei como ‘não-amador’. Receberia um pouco pelo clube e ganharia em emprego na Prefeitura. Foi assim que entrei para o Departamento Municipal de Estradas e Rodagens (DMER), onde acabei aposentado em 1990”. Iniciava assim a bela carreira profissional de zagueiro nascido em Dezembro de 1931 já predestinado a escrever seu nome na história do futebol maranhense. Pelas informações dele e da atual esposa, Terrível jogou 11 anos seguidos no Sampaio Corrêa (1948/58). Foi bicampeão Etsadual em 1953/54.

 O outro contrato foi com o Moto Club, onde ficou por mais oito anos (1959/66), conquistando o bicampeonato em 1959/60 e mais o título de 1966. Durante os 18 anos de carreira, Terrível participou de quase toas as seleções estaduais convocadas.

Por causa de uma trombose sofrida em 1989, ele não se lembra das escalações das equipes que jogou. Se lembra bem de alguns amigos que jogaram com ele, tais como Ribeiro Garfo de Pau, Negão, Bacabal, Walber Penha, Zuza, Esmagado, Reginaldo, Baezão, Baezinho, Hamilton, Nabor, Valdeci, Laxinha, Mizael e Decadela. “Gostaria de rever alguns destes amigos”, confessa.

Uma lembrança que não se apagou da mente de Terrível foi quando o Renner, do Rio Grande do Sul, veio jogar em São Luis. “Quando entramos em campo, tivemos que olhar para cima para ver a cara dos branquelos. Eles eram muito altos. Nesse dia joguei coo nunca. Dava cotovelada, chegava junto e ainda dizia pra eles: sai pra lá que aqui não é teu lugar”. Os jogadores do Renner se encarregaram de espalhar pelo Brasil a fama do nosso terrível zagueiro. A partir de então, quando um time de fora vinha jogar em nossa capital, era normal que perguntassem: “Terrível vai jogar?”. O garoto do Diamante passou a ser respeitado em toda a região e no país inteiro.

Uma particularidade na carreira de Terrível é que todos sabiam que ele era atleticano e que sempre se imaginava defendendo as cores do MAC. Por assinar contratos de gaveta, ficou com o passe preso no Sampaio e depois no Moto, adiando assim seu maior sonho. Só que muitos ficavam desconfiados quando o MAC era o adversário. “Será que Terrível vai ser o mesmo diante do clube do coração?”. “Quando eu ia jogar contra o MAC, a responsabilidade era muito grande. Eu não podia falhar para não dar margem ao falatório. Graças a Deus minhas notas sempre eram boas, entre oito e nove e meio, comprovando o meu profissionalismo”.

Terrível jogou a vida toda com muita competência. Respeitou muito os atacantes. O maior deles foi Hamilton. “Era frio e calculista dentro da área e sabia o que fazia com a bola nos pés. Era o terror dos zagueiros. Não tinha medo da minha cara feia”, relembra, dando mais uma de suas belas risadas sobre o seu passado glorioso e que marcou o futebol maranhense.



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