segunda-feira, 14 de abril de 2014

TUTINHA - Maior ídolo da história do Ferroviário Esporte Clube (FEC)


TUTINHA (FERROVIÁRIO)

Quando criança, Tutinha ficava impressionado pela extrema habilidade do jogador Garrincha, o maior ponta-direita de todos os tempos do futebol mundial. As jogadas desconcertantes e o refinado toque de bola do eterno “Mané” fascinaram o garoto, que passou a incorporar a posição e que o consagraria, anos depois, nos campos de futebol do Nordeste. Francisco Nogueira de Souza, cearense de Maracanaú (pequeno município da Região Metropolitana de Fortaleza), nasceu no dia 28 de Maio de 1943. Ainda criança, foi morar com a sua família no Bairro Vila Manuel Sátiro, na capital cearense. Foi ali que o garoto começou a dar os primeiros passos com a bola, jogando na equipe juvenil do Floresta, time do próprio bairro. Torcedor do “Vozão”, o jovem Tutinha era um assíduo frequentador dos treinos da equipe principal do clube alvinegro, no Estádio Alencar Pinto, o popular “Ninho das Cobras”. Das arquibancadas para um teste no Vozão foi um pulo. Jogador de extrema habilidade, logo em seu primeiro treino ele foi chamado pra fazer parte da equipe, onde permaneceu nos juvenis entre 1959 e 1960. No ano seguinte, aos 18 anos, foi remanejado para a equipe principal do alvinegro cearense, estreando em um clássico no Estádio Presidente Vargas. Tutinha permaneceu no Ceará Sporting Club até 1963. Por divergências com a diretoria, que não o deixou assinar com o ABC de Natal, o craque trocou o alvinegro pelo seu maior rival, o Fortaleza. A troca deixou insatisfeita toda a sua família, declaradamente torcedora do Ceará.

Após uma breve e apagada passagem pelo Fortaleza, Tutinha acabou transferindo-se, em 1966, para o Quixadá, equipe do interior cearense. Desiludido com o futebol, o craque esperou o encerramento do Campeonato Cearense daquele ano e resolveu retornar a Fortaleza, a fim de dar seguimento aos seus estudos. A paixão pela bola, porém, não o fez abandonar o futebol e Tutinha passou a atuar pela equipe amadora do seu bairro. Um fato, porém, o fez repensar e retornar aos gramados como profissional: o Ferroviário, terceira força da capital, estava com o seu campo em reformas e foi treinar justamente no bairro onde Tutinha residia. O jogador foi reconhecido pelo técnico, que o convidou pra treinar no “Ferrim”, para manter a forma. Na mesma semana, desembarcavam em Fortaleza o dirigente Antônio Bento Cantanhede Farias e o diretor Barroso, ambos do Sampaio Corrêa, pra contratar o ponta-direita Lambreta, do Fortaleza. Ambos foram visitar o treino do Ferrim e dissera-lhes que havia ali um ponta-direita mais novo que Lambreta. Por indicação, os diretores bolivianos acabaram então levando Tutinha e Lambreta, para um período de observação no Tricolor maranhense. Tutinha, com intenção de sair do futebol cearense, decidiu assinar com o Sampaio Corrêa e desembarcou em São Luis no dia 26 de Maio de 1967, justamente dois dias antes do seu aniversário de 24 anos.

Tutinha e Lambreta estrearam pelo Tricolor de São Pantaleão no dia 28 de Maio de 1967, em um jogo da Taça Cidade de São Luís, contra o todo poderoso Moto Club, configurando-se na época como o atual campeão maranhense. A estreia de Tutinha em um Superclássico não havia sido por acaso: segundo as palavras do treinador Alberino de Paula, o Bero, um jogador quando é bom, se conhece em um clássico. E a premissa de Bero se confirmou: o Sampaio Corrêa venceu a partida por 1 a 0, com um gol de falta do ponta Tutinha, que rapidamente caiu nas graças da torcida. Lambreta, infelizmente, não conseguiu firmar-se e na mesma semana o mandaram de volta a Fortaleza. Sobre a estreia de Tutinha na Bolívia, em partida realizada no Estádio Nhozinho Santos, assim perfilaram as duas equipes: Sampaio Corrêa - Zé Raimundo; Pompeu, Geraldo, Osvaldo e Nivaldo; João Bala e Carlos Alberto; Fifi, Tutinha, Lambreta e Ribamar; o Moto Club, do experiente treinador Rinaldi Maia, entrou a campo com Vilanova; Paulo, Alzimar, Alvim da Guia e Corrêa; Ronaldo e Ananias; Zezico, Hamilton, Pelezinho e Nabor. Nessa época, o Tricolor, com sérios problemas financeiros, acabou promovendo à equipe principal alguns grandes nomes que vieram dos chamados juvenis, como Marcial, Pompeu, Djalma, Fifi e João Bala.

Rapidamente adaptado ao nosso futebol, logo Tutinha foi convocado pelo treinador Ênio Silva para a histórica partida entre a Seleção Maranhense do poderoso Santos de Pelé, em jogo que entrou para a história pela célebre frase do então Governador do Maranhão, José Sarney: “Vim ver o Santos jogar e vi a Seleção Maranhense”. O jogo foi realizado no dia 05 de Novembro de 1967 e o nosso selecionador era formado à base do Moto Club: Manguito; Paulo (Nivaldo), Alzimar, Alvin da Guia e Corrêa; Nélio (Carlos Alberto) e Barrão (Santana); Garrinchinha, Isaac, Cândido (Américo) e Pelezinho (desses onze titulares, apenas Manguito e Cândido eram do Ferroviário; todos os outros pertenciam ao Papão do Norte). Tutinha, porém, nem chegou a entrar em campo, fato esse que o frustrou como jogador profissional.

No ano seguinte, 1968, mesmo com o tricampeonato motense, Tutinha foi um dos grandes destaques do Campeonato Maranhense e recebeu proposta para retornar ao Fortaleza. A imprensa cearense, inclusive, já dava certa como a sua transferência para a equipe do Pici. Porém, quis o destino que o craque ficasse por mais um tempo no futebol maranhense: durante um torneio amistoso no Municipal, Sampaio e Moto realizaram a preliminar de Fortaleza 0x1 Ferroviário, dia 15 de Setembro de 1968. No Superclássico, vencido pelos motenses pelo placar de 1 a 0, os dirigentes do Fortaleza observaram Tutinha. Logo no primeiro tempo, Carlos Alberto cobrou um escanteio e Tutinha se chocou de cabeça com o motense Geraldo, indo os dois para o hospital. Mais do que isso, encerrava-se ali em definitivo para Tutinha qualquer tentativa de retorno ao futebol cearense. Tutinha acabou assinando com o Papão do Norte no segundo semestre de 1968, para as disputas da Taça Brasil daquele ano. Após renovar com alguns atletas, a diretoria foi buscar alguns grandes nomes para compor o restante do elenco. Trouxeram então Tutinha, Osvaldo e o meio-campo Carlos Alberto, pertencentes ao Sampaio Corrêa e que chegaram por empréstimo de três meses. Antes de vestir a camisa do rubro-negro, Tutinha novamente foi convocado para a Seleção Maranhense, desta vez em jogo contra o todo poderoso Corinthians do craque Roberto Rivelino, em excursão pela nossa região. Na partida, realizada no dia 14 de Abril de 1968, a equipe paulista acabou vencendo o nosso combinado pelo placar de 2 a 0, em partida realizada no Municipal.

Pela Taça Brasil, Tutinha integrou-se ao elenco composto por verdadeiras feras, como Djalma Campos, Zezico, Ribamar, Ronaldo, Geraldo, Corrêa, Vilanova e Alzimar. Porém, o craque foi mal aproveitado na equipe titular, sobretudo após declarações por parte do experiente treinador Marçal Tolentino Serra na imprensa, que dizia que o ponta só jogava mesmo com a camisa do Sampaio Corrêa. Após a eliminação da Taça Brasil para o Bahia, Tutinha deixou o Papão do Norte e assinou com o Ferroviário, que retomava as atividades do elenco profissional. A equipe da REFFSA formou um grande time, com Tutinha, Neto, Esquerdinha, Vivico, Valdinar, Antônio Carlos, Garrinchinha e Neguinho, tendo o pernambucano Géo como treinador. Pós perderam a decisão de 1969 para o Maranhão Atlético Clube, Tutinha recebeu uma proposta do Sport Belém e decidiu rumar para o Pará. Após uma breve passagem pelo futebol paraense e com o falecimento da sua mãe, Josefa Marinho, Tutinha assinou e defendeu as cores do Comercial de Campo Maior, do Piaui.

No ano seguinte, 1971, Tutinha retornou à capital cearense, desta vez para defender as cores do América de Fortaleza, onde chegou logo ao vice-campeonato do Torneio Inicio ao Campeonato Cearense. Em 1972, o craque voltou a São Luis, onde assinou com o modesto São José, do Bairro do João Paulo. Após destacar-se em um amistoso na cidade de Imperatriz, Tutinha chamou a atenção da própria diretoria do clube imperatrizense, sendo chamado em seguida para defender as cores do “Cavalo de Aço” (Tutinha sequer retornaria a São Luis com a delegação do São José, assinou logo com a equipe do Baixo Tocantins). Pelo Imperatriz, o ponta atuou durante dois anos (1972 e 1973). E foi justamente em 1973 que Tutinha teve a chance de dividir o mesmo gramado com aquele que seria o seu grande ídolo da infância: Garrincha esteve na cidade de Imperatriz para um amistoso beneficente, envergando a camisa do Cavalo de Aço. Tutinha concedeu-lhe a camisa 7 para que o craque das “pernas tortas”  atuasse na ponta-direita. A partida, realizada no dia 16 de Julho daquele ano, uma quinta-feira de feriado municipal, terminou empatada em 0 a 0 e Garrincha atuou durante trinta minutos pelo Cruzeiro (do desportista Diomar) e outros trinta minutos pelo Imperatriz. Com certeza foi a maior emoção em vida do craque Tutinha ao conhecer de perto o seu grande ídolo do passado.

Após a passagem pelo interior do Maranhão, Tutinha resolver encerrar a sua carreira como atleta profissional. O Imperatriz foi o seu ultimo clube e Tutinha pendurou as chuteiras após um amistoso contra o MAC. Ainda recebeu uma proposta para voltar a atuar em São Luis, mais o fator família pesou na decisão em abandonar os gramados, fixando residência em Imperatriz, onde residiu por 24 anos. O craque faleceu em Teresina no dia 08 de Agosto de 1996, aos 53 anos, vítima de insuficiência respiratória. Em vida, Tutinha sempre dizia que o melhor jogador maranhense que viu em campo foi o meia Djalma Campos, seu amigo pessoal e padrinho de um de seus filhos. O Sampaio Corrêa, seu clube de coração, passou a ter por Tutinha um carinho muito especial e o eterno ponta-direita sempre foi bem querido pelos torcedores bolivianos.

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