sábado, 19 de abril de 2014

Bacabal, goleiro do Moto Club nas décadas de 50 e 60, aniversaria hoje (19 de Abril)

São 86 anos de vida. O eterno camisa 1 do Papão do Norte nas décadas de 50 e 60 completa mais um ano de vida hoje e merece, com justiça, uma pequena, mas significativa homenagem do Blog Futebol Maranhense Antigo. Abaixo, foto tirada hoje, durante as comemorações pelas suas mais de oito décadas de vida. Na foto, ao lado do seu filho Bacabal, o Artilheiro de Santo Antônio e goleador com passagens por Maranhão, Moto, Sampaio, River de Teresina e futebol equatoriano. Antes, deixo a entrevista do goleiro e aniversariante para o podcast "Memórias do Futebol Maranhense"

 Bacabal e os times do Moto Club, América cearense, Botafogo de Salvador e Seleção Maranhense




Quando se fala em uma das posições mais importantes em uma onzena no futebol, logo nos vem à cabeça o goleiro. Importante e, às vezes, ingrata. Quando a equipe vence, o treinador e o atacante, geralmente, são os mais reconhecidos pela imprensa e parte da torcida; quando a equipe sofre uma derrota, porém, o primeiro nome na lista de culpados é justamente o goleiro. E nessa tão (in) discutível posição, o Moto Club de São Luis coleciona grandes nomes. Como não lembrar o heptacampeão Rui (cearense que brilhou no gol do Moto Club durante a campanha do heptacampeonato e com grande importância na Seleção Maranhense), do carioca Vila Nova (com seu corpanzil e a extrema habilidade nas bolas aéreas, sobretudo pelas verdadeiras “pontes”, que levavam a torcida à loucura), Walber Penha, entre outros. Como esquecer de nomes como Ney, Espanhol, Campos, Edson (goleiro da década de 1970), Cenilson, Moacir, Samuel, Clémer (com passagens pela Portuguesa de Desportos e Internacional, do Rio Grande do Sul), Milagres, Ruy Scarpino e mais recentemente Tião, um dos heróis da campanha de 2000? Porém, um nome será para sempre lembrado na galeria dos maiores arqueiros da história Moto Club de Luis: Raimundo Nonato Matos de Abreu, o famoso goleiro Bacabal, um dos grandes personagens do Papão nas décadas de 1950 e 1960.

Bacabal nasceu na cidade homônima no interior do Estado, no dia 19 de Abril de 1928. O garoto Raimundo Nonato teve infância muito humilde, onde os seus pais eram lavradores. Apesar das dificuldades, conseguiu concluir os estudos até o atual segundo ano do Ensino Médio (somente não completou o Ensino Básico pois teve que se transferir para São Luis, onde foi jogar nos juvenis do Moto Club). Apesar de toda uma vida debaixo das traves, Bacabal começou a sua trajetória no futebol jogando como ponta-direita em um time amador da cidade chamado Bacabal Atlético Clube, o BAC. Em uma ocasião, o goleiro titular adoeceu e ele foi deslocado para o gol, posição da qual nunca mais deixaria de jogar. Após passagens por diversos clubes amadores da cidade, chegou, aos 17 anos, à Seleção Bacabalense, em 1948, para as disputas do famoso Torneio Intermunicipal de Futebol Amador. 


O plantel bacabalense foi organizado e levado a São Luis pelo treinador chamado Pinduba. O representante de Bacabal ficou alojado na Escola Técnica, atual CEFET, na fase decisiva da competição. A Seleção de Bacabal não foi campeã, perdendo para as Seleções de Vitória do Mearim, Pedreiras e São Bento. O selecionado de Bacabal perdeu todas as partidas decisivas e em uma delas, o goleiro chegou a sofrer seis gols. Porém, o goleiro do representante do Baixo Mearim chamou a atenção da diretoria do rubro-negro da Fabril e Bacabal sequer voltou para o interior: foi chamado para integrar o quadro do amador do Santa Isabel, por  e, paralelamente,onde também trabalhava pela fábrica dos Aboud. Até hoje o ex-goleiro relembra a escalação da equipe da Fábrica: Bacabal, Cacaraí; João Cinco, Lourival, Gordo e Waldemar; Jujuba, Moraozinho Pepê, Antônio Farias (o mesmo que seria no futuro dirigente do Sampaio Corrêa) e Jesus. Porém, o goleiro, pelas suas boas atuações, rapidamente foi integrado às categorias de base do Moto Club, onde passou um ano, adquirindo experiência e trabalhando os fundamentos básicos dessa posição.

Sem muito espaço no rubro-negro, Bacabal, acabou emprestado ao Onze Amigos, do Bairro do Monte Castelo, para as disputas do campeonato amador, por um período de seis meses. Bacabal nem terminou de jogar pelo Onze Amigos, pois o Moto o trouxe de volta e o colocou na reserva de Walber Penha, um dos maiores nomes do futebol maranhense e que ocupara o lugar o heptacampeão Rui. A sua primeira passagem pelo Papão findou-se em 1951, quando conseguiu uma vaga no time profissional, na mesma época em que Walber Penha figurou no plantel do clube motorizado. Bacabal se tornou, efetivamente, o goleiro titular, quando Walber Penha não pôde atuar durante algum tempo. Seu primeiro jogo foi contra o ABC (Natal) em excursão do Moto ao nordeste do país. O jovem goleiro, aos 21 anos, não decepcionou, impondo respeito aos seus companheiros. Porém, não chegou a disputar a temporada inteira daquele ano, por conta de uma briga entre a Federação Maranhense de Desportos e os times do MAC e Moto Club, este último dissolvendo o seu quadro profissional. Dispensado, Bacabal assinou então contrato com o América de Fortaleza. Na mesma leva de atletas daquele ano, seguiram para a capital cearense com Bacabal os atletas Merci, Cosme, Misael e o grande Canhoteiro, que depois seria vendido ao São Paulo. Antes, porém, chegou a integrar o Juventude, equipe formada pela FMD por conta do número mínimo de clubes no Campeonato Maranhense daquele ano. O Juventude possuía camisas listradas nas cores verde e branco e apresentava a seguinte formação, que era a base do Santa Isabel: Bacabal; Cacaraí, João Cinco, Lourival e Gordo; Waldemar, Moraozinho, Jujuba, Pepê, Antônio Bento e Jesus. O time ainda disputou um amistoso contra o Clube do Remo, no Estádio Santa Isabel, e três meses depois o seu quadro profissional foi extinto.

Na capital cearense, Bacabal foi um dos grandes destaques do América, apesar do vice-campeonato estadual daquele ano, onde o clube alviverde havia perdido a decisão para o Fortaleza. Depois de 1951, o América não brigou mais pelo título, configurando-se apenas como um mero participante no campeonato local. Porém, as boas atuações do arqueiro chamavam a atenção, sobretudo dos outros clubes da região Nordeste. Em 1954 a eterna miss Marta Rocha foi homenageada pelo América, vice-campeão cearense, que organizou um pentagonal com a participação, além do próprio time cearense, do Bahia, Vitória, São Cristóvão-RJ, Botafogo-BA e o Galícia-BA. O prefeito de uma cidade do interior do Ceará inauguraria o estádio local e convidou os times do Botafogo e do América, participantes daquele torneio, para a abertura do local. Como sempre, Bacabal foi um dos destaques da partida, o que despertou o interesse dos dirigentes do Botafogo baiano, que o contrataram.

No alvinegro baiano, Bacabal permaneceu entre 1955 a 1957 (segundo registro em sua carteira de atleta profissional pela Federação Baiana de Esportes Terrestres, atual Federação Baiana de Futebol). Mais um vice-campeonato, agora pelo Botafogo, e o goleiro foi emprestado ao Vitória, para uma longa excursão pelo Nordeste (Recife, Caruaru, Campina Grande, entre outras cidades). Não precisa nem dizer que Bacabal despertou interesse pelos dirigentes do rubro-negro da capital baiana, por onde permaneceu durante três meses. Apesar da fama e respeito adquirido como goleiro e certa estabilidade financeira na Bahia, Bacabal decidiu retornar, em 1957 (para a sorte da imensa torcida do rubro-negro maranhense, é claro). Quando retornou a Salvador, havia um western no hotel, convidando-o para voltar. César Aboud mandou buscá-lo e o levou de volta ao Moto Club, onde ficou até 1967, encerrando a sua carreira como atleta profissional.

Dois anos após o seu retorno ao Papão do Norte, o seu primeiro título: Campeão Maranhense em 1959, com um elenco inesquecível: Bacabal; Baezinho, Baé e Bernardino; Dico e Matuto; Luis Carlos, Valdeci, Zé Maria, Henrique e Zezico. Um timaço formado pelo Coronel Carlos Moscoso. Apesar da baixa estatura (1,66 metros), o goleiro do Moto saia do gol com muita segurança e sempre impedia um bom ataque do adversário. Foi ainda campeão no ano seguinte, em um elenco reforçado pelos inesquecíveis Esmagado, Gojoba e Nabor, este último com passagens até pelo Flamengo do Rio de Janeiro. Um ano antes, uma das passagens mais marcantes na carreira do goleiro, quando defendia a Seleção Maranhense: em Julho de 1958, quando o Brasil retornou do seu primeiro título mundial, na Suécia, o Botafogo do Rio esteve em São Luis para uma partida amistosa contra o selecionado maranhense. Na ocasião, Bacabal era o nosso goleiro e o alvinegro carioca apresentava em seu elenco Garrincha, Didi, Nilton Santos e outros gênios do futebol mundial. Apesar da marcação especial que recebeu em campo, Garrincha marcou um gol onde a bola passou entre Bacabal e a trave. Nessa partida, um fato curioso: Terrível, lateral da nossa seleção, deu uma entrada em Didi, que se reclamou a ele: “Poxa, vai com calma ai, eu acabei de representar o teu país!”. Terrível retrucou: “Tudo bem, mas aqui você não passa!”.

Durante toda a sua carreira profissional, Bacabal se envolveu em uma única briga, justamente em um jogo contra o grande rival do Papão, durante a decisão do Campeonato Maranhense de 1961, onde o rubro-negro jogava pelo empate para ser o campeão daquele ano. O árbitro dessa partida era o carioca Airton Vieira de Moraes, na época apelidado de Sansão, pelo fato dele publicamente ser adepto do jiu-jítsu. Durante o jogo, o atacante Fernando, após cobrar um pênalti, começou a chutar a bola rebatida e já sob o domínio de Bacabal. O goleiro motense foi reclamar de uma evidente falta ao juiz e Fernando acabou anotando o gol. Como o árbitro confirmou o tento do Sampaio Corrêa, Bacabal pegou a bola e, no momento de raiva, atirou-a contra o peito de Airton Moraes, que jogou o apito de lado e partiu para cima do goleiro. Bacabal já conhecia a fama de lutador do árbitro desde a época em que atuava pelo América do Ceará e teve o auxílio de Calado e Casquinha no momento da confusão. O árbitro, após a briga, expulsou os três envolvidos no incidente e o Sampaio Corrêa, que já vencia por 2 a 1 àquela altura, ainda encontrou tempo de fazer mais dois gols e conquistou o título de campeão daquele ano, evitando o tricampeonato motense. Em 1964, o arqueiro rubro-negro levou o seu primeiro título interestadual: a Copa Norte pela Seleção Maranhense. Diga-se de passagem era uma senhora Seleção. Bacabal; Ribeiro Garfo de Pau, Omena, Negão e Português; Gojoba, Chico, Garrinchinha e Hamilton; Croinha e Jobé. Na decisão, contra a Seleção do Pará, Bacabal garantiu o empate em 1x1 contra os donos da casa, numa defesa espetacular no último minuto de jogo. Foi saudade por todos e se transformou no astro da conquista maranhense em terras paraenses.

Talvez a maior infelicidade de Bacabal como goleiro foi ter tomado um frango em um Superclássico Sampaio Corrêa x Moto Clube, em uma data que o goleiro não recorda, apesar de comentar em detalhes sobre o lance: o atacante do Sampaio (Fernando) vinha em uma jogada pela ponta-esquerda e deu um bico na bola. Mas um bico bem leve. Eu simplesmente subestimei a jogada e a bola escapou pela minha mão, lembra o arqueiro. Porém, isso e nem outra falha o fez abater. Durante os mais de dez anos à frente do Papão, Bacabal ainda encontrou outro adversário (à altura, por sinal): o goleiro Vila Nova. Os dois revezaram-se na meta do Moto por cinco anos, de 1963 a 1968. Para Bacabal, Vila Nova tinha uma característica particular que o favorecia: ele tinha uma capacidade intuitiva muito grande. Ele praticamente previa as jogadas dos atacantes. Não há duvidas de que ele foi um dos maiores do nosso Estado, comentaria sobre o já falecido goleiro carioca. Bacabal ainda recusou uma boa proposta do Clube do Remo, com a promessa da transferência do trabalho paralelo do goleiro para a cidade de Belém. Apesar da garantia, Bacabal não assinou e continuou atuando pelo Moto Club.

Em 1966, faltando apenas oito meses para o término do seu contrato com o Papão do Norte, resolveu pendurar as chuteiras. Disputou a sua última partida como profissional em um amistoso contra o Olaria-RJ, no Nhozinho Santos. Jogou apenas o primeiro tempo, dando lugar ao reserva Vila Nova. No seu contrato, segundo depoimento do próprio goleiro, rezava a seguinte cláusula: “no rompimento desse contrato, a parte infratora indeniza o clube com um determinado valor. Ao final do mesmo, o atleta tem direito ao passe livre”. Como partiu de Bacabal a vontade de parar de jogar profissionalmente, ele deveria indenizar o Moto (ainda surgiu um convite do Maranhão Atlético Clube, mas Bacabal, que já não pensava mais em atuar no futebol, poderia pagar uma pesada multa ao rubro-negro caso voltasse aos gramados vestindo as cores do MAC). Bacabal já trabalhava na Guarda Portuária, como auxiliar de receita, no setor de fiscalização e conciliava o emprego com o futebol. Ainda trabalhou, com Pereira dos Santos, na Polícia Civil. Como não dependia do salário dos campos, Bacabal não passava dificuldades quando o Moto atrasava os salários dos jogadores.

O eterno camisa 1 do Papão ainda receber, no dia 28 de Dezembro de 2001, a medalha do Mérito Timbira, entregue pela Governadora Roseana Sarney, fato esse que enche de orgulho o ex-goleiro. Quando encerrou a sua carreira, Bacabal ainda recebeu diversos convites para ser treinador de goleiros do Papão ou trabalhar pelas categorias de base do clube. Recusou todos, sem pensar duas vezes. “Fiz como Pelé: quando ia entrar em decadência, abandonei”, disse. Esse era Bacabal, um goleiro que virou uma verdadeira lenda viva na história do futebol maranhense – e na galeria dos grandes nomes da gloriosa vida do Moto Club de São Luis. Aposentou-se em 1997 do cargo de Fiscalização da Guarda Portuária do Maranhão.

Um comentário:

  1. Meu avô é uma grande figura e dono de uma rara inteligencia! Parabéns!!

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