terça-feira, 15 de julho de 2014

Mozart, conquistador de títulos


 Matéria de Edivaldo Pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão, de 02 de Janeiro de 1998

Sampaio Corrêa em 1950. Em pé: Reginaldo, Ferreirão, Decadela, Zé Rocha, Baltazar e Serejo; Agachados: Bodinho, Albano, Mozart, Geovani e Zé Pequeno

Talento nato. Assim foi Mozart de Sá Tavares, garoto que teve o privilégio de começar a jogar no elitista Águia Negra, time de futebol de campo do colégio Marista, por volta de 1943, e amadurecer atuando nos principais clubes de São Luís.

Na época em que a maioria dos meninos de 15 anos procurava os campos de várzea para bater suas “peladas”, Mozart atendia aos apelos do pai, Gerson Tavares, avesso ao futebol, e restringia sua participação nos treinamentos do Marista e nos Jogos Estudantis.

Como center-forward (centroavante) de um grande vigor físico impressionante e grande domínio de bola, sua passagem para o chamado futebol profissional foi rápida e casual. O colégio Marista da década de 40 funcionava onde hoje é a rádio Educadora, mas os treinamentos do time da escola aconteciam na famosa Quinta do Barão, local onde atualmente a entidade está instalada.

O Moto, do técnico uruguaio Comitante, também se preparava na Quinta do Barão. Um dia faltou um jogo para a equipe reserva. Com sotaque carregado, Comitante pediu para um garoto que estava por lá completar o time. Era Mozart. Mesmo sem recordar os detalhes dessa “estreia”, ele mantém nítida a lembrança dos três gols marcados e do deslumbramento que ocasionou sua bela participação. O convite para integrar o melhor time de São Luís foi imediato, afinal ninguém ia perder a oportunidade de ter um talento para dividir a posição com o “cobra” Pepê. E lá foi Mozart, um simples amador, aprender os macetes da posição de artilheiro como reserva de um craque, considerado até hoje um dos melhores goleadores que passou pelo Maranhão.

Sempre sendo chamado para entrar em um dos tempos dos jogos, Mozart foi logo de cara campeão maranhense, de um Moto que em 1947 conquistava seu tetracampeonato. Em 1948, com a saída do piauiense Pepê, ele assumiu o comando do ataque rubro-negro, mostrando impetuosidade, oportunismo e faro para fazer gols.

Temperamental, brigava sempre quando o assunto era concentração. Na espera da disputa do título, que daria ao Moto o pentacampeonato, Mozart decidiu não cumprir a determinação da diretoria. No dia seguinte, estava em campo conquistando mais um troféu. Porém, com as broncas levadas pelos dirigentes, resolveu sair do Moto.  

 Mozart no Olaria, em 1949

Poderia ter continuado sua trajetória de sucesso não fosse um incidente com um estivador, Leopoldo, que o ameaçou de morte. Apavorado, o pai Gerson Tavares o mandou de navio pra o Rio de Janeiro. O cargueiro Loyd levou cerca de quatro dias para cegar só a Fortaleza. Com a folga dada pelo comandante, Mozart aproveitou o foi assistir ao treino do Fortaleza, que se preparava para enfrentar o Olaria, do Rio de Janeiro. “Nesse dia”, conta ele, “o radialista Barbosa Filho, quando me viu, pediu para a diretoria do Fortaleza me deixar treinar e reforçar o clube no dia seguinte”. Em troca de uma passagem de avião, Mozart aceitou o desafio. O Olaria ganhou o jogo por 1 x 0, mas ele conquistou a diretoria carioca. Quando chegou ao Rio, estava com a sua vaga garantida.

Por volta de 1950, o artilheiro retornava a São Luís. O Sampaio, que sonhava em ser campeão estadual, não se fez de rogado e imediatamente chamou o amador Mozart. Sua característica de goleador continuava. Em um dos históricos amistosos interestaduais, o Tricolor derrotou o Flamengo do Rio por 3x2, depois de estar empatando em 2x2. A vitória veio dos pés de Mozart, num golaço de bicicleta, que quase fez desabar o Estádio Santa Izabel. Mas o sonho do título não conseguiu ser realizado por dois anos seguidos, por causa do Maranhão Atlético Clube, campeão de 1952, e do Vitória do Mar, campeão em 1952. Nos dois anos seguintes, Mozart voltou a conhecer a glória como integrante de seleções maranhense e como jogador do Sampaio, bicampeão maranhense de 1953 e 1954.

O futebol não bastava, já que ele nunca quis se profissionalizar. Com o curso de contador, foi atrás de uma outra profissão. Passou a ser fiscal da previdência do antigo IAPC, hoje INSS. O esporte era acima de tudo uma paixão avassaladora para Mozart, que jogava ainda futebol de salão e basquete. No futsal também arrebatou títulos pelo Santelmo, ao lado de Murilo Gago, Poé, Cléo Furtado e Biné. No basquete, sua invejável mão certeira e a conquista de outros títulos fizeram seu Brito, da ótica A Diamantina e dono do clube Vera Cruz, presenteá-lo com as alianças de seu primeiro casamento.

A invejável forma física, aliada à experiência de quem era um grande atleta, foram os ingredientes necessários encontrados pela diretoria do Ferroviário, que o convidou para fazer parte do timaço de 1957. Mesmo tendo em campo Hamilton, que ficou jogando pela direita, Mozart encerrou sua carreira de atleta amador de futebol por cima, conquistando seu quinto título estadual, o primeiro do Ferrim. Saiu de campo com 29 anos de idade e entrou para os anais do futebol como um dos principais centroavantes que jogaram no Maranhão.


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