domingo, 20 de julho de 2014

Calazans, um treinador que ficou esquecido


Calazans, o último agachado, no time do Ícaro, na década de 60

Matéria publicada no Jornal O Estado do Maranhão, em 1975

As queixas do rapaz são sempre as mesmas. Dizem que é posudo, convencido “mascarado” e outras coisas parecidas. Só o que nunca disseram é que é incapaz. E nem poderiam fazê-lo. Afinal de contas por onde passou, nunca recebeu o apoio necessário a um trabalho de envergadura e talvez tenha sido até hoje o mais sacrificado de todos os treinadores do nosso futebol. A razão é conhecida e disso ninguém faz segredo: ele é um rapaz pobre e nasceu na terrinha na terrinha e está inserido no contexto daquele dito popular: “sangue de cada não faz milagres”. Mas a sua personalidade é tamanha que nunca se aborreceu com os que assim pensavam a seu respeito. E tanto isso é verdadeiro que o seu papo é sempre entremeado de ironias ou frases hilariantes. Por ser estudado um pouco, tem condições de alcançar as mensagens em todos os diálogos e além disse não é inibido e sabe transmitir o que pensa com muita facilidade.

Eudes Calazans de Jesus, este o seu nome completo. Começou as suas atividades esportivas jogando peladas na Vila Passos e mais tarde no Tabocal. Daí o futebol maior foi um pulo, porque logo o Moto se interessou pelo seu concurso. A sua passagem no time rubro-negro foi curta e não demorou muita já estava no MAC, onde realizou boas partidas até que se contundiu estrangulando os meniscos ao pisar em falso numa saliência do terreno. Na época não existia um Cassas de Lima e a carreira de jogador acabou-se para Calazans.

O FUTEBOL NO SANGUE – tentou esquecer o futebol, talvez amargurado com o que lhe aconteceu. Mas era impossível manter um conflito que se estabelecia dentro de si. Organizou um clube amador – o Guarany – e em seu bairro experimentou pela primeira vez a sensação de dirigir a equipe, e confessa que foi a única vez que tremeu e se sentiu incapaz de assumir tamanha responsabilidade. O seu sucesso foi total e tanto assim que foi convocado a treinar a Seleção de Santa Inês que nos meados dos anos 60, conseguiu um vice-campeonato e estabeleceu a maior goleada de todos os intermunicipais, vencendo Barreirinhas por 11 a 1. Era a sua primeira consagração. Terminaria ai a fase de treinador puramente amadorista. Mas ele precisava dar um pulo mais alto, e indicado pela diretoria do Ícaro, uma jovem agremiação que nasceu sob a égide do Destacamento da Aeronáutica, no Tirirical.

UM TIME MUITO CERTINHO – Trabalhando humildemente e com poucos acreditando no seu valor profissional, Calazans armou uma equipe e deu o que fazer para os chamados e acabou com a festa do Sampaio, vencendo o time tricolor por 2x1 e quando a “Bolívia” precisava só de um empate. Ele faz questão de recordar a formação e diz orgulhoso: “o atual treinador Marçal era meu jogador e me deu muito trabalho”. Formava o Ícaro com Juracy; Buranha, Marçal, Cabeça e Esmagado; Cauby e China; Santana, Lua, Popó e Pinagé.

A PASSAGEM PELO MAC – O seu trabalho foi reconhecido pelo MAC onde prestou serviços e não decepcionou, substituiria a Ênio Silva que estava na “crista da onda”. Depois voltaria ao Ícaro, para mais adiante prestar sua colaboração ao Graça Aranha.

DEBAIXO DO CALOR – A sua grande oportunidade surgiu em 69, quando R. Macieira o levou ao Sampaio. Afinal, um sonho tornar-se-ia realidade, o de treinado o time mais querido da cidade. No Tricolor de São Pantaleão, realizou uma boa campanha e em 18 jogos sob o seu comando, venceu 13, empatou 3 e perdeu duas partidas. Tudo indicava que a sua permanência seria no “time das multidões”, mas o Sampaio tinha diretores que eram padrinhos de jogadores. E quando um dia Calazans foi dar o “pito” em Bosco, um centroavante pernambucano que não jogava “bulufas’, mas sabia envolver os dirigentes com um bom papo, ele caiu. Tinha acabado de vencer ao Ferroviário por 4 a 1. Até hoje não explicaram a razão da dispensa, a não ser que Bosco era mais importante que ele.

No ano seguinte Calazans voltava a dirigir uma equipe do interior e conseguiria ganhar o Intermunicipal dirigindo a Seleção de Pindaré. Em 1972 o Ferroviário o convocaria e com o time da REFFSA, chegou a participar de um campeonato Brasileiro. E quando tudo parecia flores, veio o “bilhete azul”, e uma explicação lacônica: é muito convencido”. E só isso. Em 1973 ele estava em Teresina, treinando o Piauí e “endureceu” muitos jogos. Mas o time do “enxuga rato” não era mais aquele e os seus diretores também.

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