segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Marçal Tolentino Serra, o mais vitorioso treinador do nosso futebol

Texto extraído do livro "Memória Rubr-Negra: de Moto Club a Eterno Papão do Norte":

Bicampeão Maranhense pelo Maranhão Atlético Clube (1969/70), pelo Ferroviário (1971), pelo Sampaio Corrêa (1972) e pelo Moto Club (1974, 1981 e 1983; Campeão Piauiense pelo Tiradentes (1973); Campeão do Brasileirinho pelo (1972) e do Torneio Maranhão-Pará (1972) pelo Sampaio Corrêa; Campeão do Torneio Intermunicipal pela Seleção de Ribamar (1972) e pela Seleção de Codó (1994). Treinou ainda o Vitória do Mar Futebol Clube, o Expressinho Futebol Clube, a Sociedade Esportiva Caxiense, o Nacional Esporte Clube (Codó) e o Flamengo do Piauí. Foram mais de 12 títulos e seis vice-campeonatos ao longo de mais de 35 anos como técnico. Era contratado, na maioria das vezes, para tirar equipes do sufoco. E conseguia. Dizia um jornalista cearense que ele tinha ‘um dedo mágico’. Essa é o perfil do treinador Marçal Tolentino Serra, o maior vencedor dentro da história do futebol maranhense – e nenhum outro conterrâneo conseguiu brilhar como ele. A sua vida como treinador baseou-se muito na observação e pouco nos livros. Sua técnica restringe-se a observar seus adversários para depois traçar um esquema que possa anulá-los em campo. A fórmula de tanto sucesso parece simples. E foi. Não à toa Marçal cravou em definitivo o seu nome na galeria dos maiores desportistas que o nosso futebol já teve o prazer em ter. E com merecimento.

O “colecionar de títulos”, ao contrário do que muitos pensam, teve uma vida muito curta nos gamados. Aos 11 anos de idade e já órfão de pai e mãe, Marçal foi internado no Colégio de Serviços de Assistência aos Menores Infratores, onde iniciou o aprendizado em motores de luz. Paralelo ao trabalho, Marçal ia aos finais de semana jogar futebol no campo do Tabocal, no Apicum, um verdadeiro celeiro de grandes nomes do nosso futebol, como Gimico e Canhoteiro. Jogador Mediano, Marçal gostava de atuar pela meia-direita ou de centroavante. Aos 15 anos passou pelo Esporte Clube Recife que era do centro de São Luis e aos 17 estava nas equipes inferiores do Sampaio Corrêa. No Tricolor, ele começou a jogar na condição de não-amador (equivalente a um semi-profissional), na década de 1950, quando a Bolívia Querida era dirigida por Jafé Mendes Nunes, radialista renomado na época. Em seguida, Marçal foi para o antigo Território do Amapá, onde morou por lá durante 11 anos e montou uma oficina para trabalhar para o Governo Federal. Paralelo ao serviço, Marçal também jogava futebol no Amapá Club, equipe da capital que ainda atuava amadoristicamente nessa época. Marçal ainda foi pro Santana Esporte Clube, equipe pertencente à companhia norte-americana de mineração ícome, agora como quarto-zagueiro e por onde foi tricampeão (1960/61/62) estadual, curiosamente os seus únicos títulos como atleta. Retornou a São Luis após pedir indenização na companhia amapaense.

No final de 1963, já com 27 anos, Marçal foi levado por Santiago, ex-atleta do Moto, para treinar no rubro-negro. Naquela época, Marçal passou a fazer parte de um time interno da antiga Aprendizagem Agrícola, atual UEMA, onde Santiago também jogava, mas escondido, por ser profissional do Moto. Santiago era instrutor físico na antiga Aprendizagem Agrícola na década de 1940 (Bodinho, do Sampaio Corrêa e recordista de gols em uma única partida de futebol no Brasil, também jogou nessa Aprendizagem Agrícola). Em seguida, Reginaldo o convidou para treinar no Ícaro, time mantido pela base aérea do Tirirical e tendo como Presidente o Tenente Sebastião Araújo, que chegou a ser vereador. Depois de reforçado, o time chegou à Primeira Divisão do Campeonato Maranhense. Nessa época, alguns bons atletas se destacaram pelo Ícaro, como Chita, Reginaldo, Sapeca (foi para o Sampaio), Cabeça, Urânia, Esmagado. Marçal era o jogador mais caro do elenco. Um ano e meio depois o Ícaro foi à falência.

 Treinador Marçal

Marçal, último em pé, na equipe do ícaro, na década de 60

No início de 1967, o Graça Aranha Esporte Clube (GAEC), equipe da Rua Graça Aranha, no Centro, e sob a presidência de Jaime Fontana, na época funcionário da Vale do Rio Doce, ressurgiu para as disputas do Campeonato Maranhense. Marçal foi o grande reforço do GAEC para as disputas, como o zagueiro central titular. Porém, no início da competição, foi obrigado a largar o time para se submeter a uma cirurgia de apêndice que havia supurado. Aconselhado pelo médico a não jogar mais futebol, se aposentou. O fator idade, segundo o próprio Marçal, também pesou para o encerramento da sua curta passagem como atleta (estava com 30 anos de idade).

Antes de se recuperar da cirurgia, os dirigentes resolveram aproveitar Marçal Tolentino Serra, que ainda era funcionário do clube e aceitou o convite para treinar o Graça Aranha. O GAEC chegou a decidir o título contra o Moto. Perdeu, mas Marçal se sentia feliz porque havia descoberto a maneira para continuar com sua grande paixão. Tratava-se da decisão do Primeiro Turno do Campeonato Maranhense de 1967, ano da sua primeira experiência como treinador. Na ocasião, o Moto empatou sem gols com o Graça Aranha e, por ter o melhor saldo de gols, ficou com o título daquela fase. Marçal deixaria em seguida o chamado Clube Milionário, sendo substituído por Valber Penha no comando. Após o GAEC, Cléber, funcionário da Fábrica Santa Isabel e pessoa de grande influência no Moto Club, levou Marçal ao Papão do Norte, um dia antes da partida entre Graça Aranha e Moto Club, realizada em 19 de Junho de 1968. Maçal, que já havia sido contratado para a função de treinador do rubro-negro, estava na arquibancada durante essa partida, para observar os atletas motenses. O Graça Aranha vencia por 1 a 0 após as expulsões do goleiro e do o zagueiro do Papão. Os diretores do Moto, que também estavam nas arquibancadas, pediram a Marçal que desse algumas instruções a Ananias, treinador do Moto. Ao final do primeiro tempo, ainda perdendo o jogo, Marçal foi ao vestiário e tomou de conta do time. O Graça Aranha, ao invés de manter a calma para chegar à vitória, quis vencer de qualquer forma e passou a jogar na retranca, explorando os contra-ataques, e o Moto virou e ganhou aquela partida por 2x1. Marçal foi levado ao Moto em substituição a Rinaldi Maia. E foi logo avisando aos jogadores: Eu quero de vocês o maior empenho possível, respeito, profissionalismo, pois até ontem eu era jogador e hoje eu sou treinador! E os jogadores seguiram à risca: o Moto foi Tricampeão Maranhense naquele ano, com sobras.

 Marçal trinador do Sampaio Campeão do Brasileirinho em 1972

Souvenir

Com características particulares, Marçal era conhecido como um técnico enérgico, às vezes ‘grosso’. Mas sempre ficava do lado do atleta quando esse tinha razão. Marçal era o tipo do treinador amigo nas concentrações: brincava e bebia com os atletas. Em véspera de jogo, porém, Marçal não costumava beber, mas acompanhava os outros jogadores. Perto das 23 horas, despedia-se dos atletas e avisava: “Parou! Estou indo embora e o treino amanhã é às 8 horas. Eu não quero falta no treino!”. E não faltava nenhum jogador, pois quando Marçal chegava, após dar alguma corrida em seu táxi antes do treino, já encontrava os jogadores devidamente uniformizados e reunidos no Santa Isabel. Independente financeiramente (montou uma frota de táxi e mantinha essa atividade mesmo dirigindo os clubes de futebol), tirava muitas das vezes dinheiro do próprio bolso para ajudar quem ia lhe pedir auxílio. O seu último time como treinador foi o Viana, em 2001, a quatro dias da estréia no Campeonato Maranhense daquele ano. Marçal realizou apenas três treinos antes do primeiro jogo, contra o Bacabal. Foi uma verdadeira festa vitória de 1x0 contra o Leão do Mearim. Na partida seguinte, contra o São Bento, Marçal mexeu na equipe, para experimentar os outros jogadores. Perdeu e, ao chegar em Viana, corria a história de que ele havia perdido propositalmente em virtude do não acerto com relação ao seu salário no Viana, já que, dias antes em uma entrevista na rádio, Marçal havia reclamado a falta de acerto financeiro. Na disputa pelo título do turno contra o Maranhão, o presidente ainda não o havia chamado para uma conversa sobre o acerto salarial. Quando a equipe veio jogar a São Luis, Marçal já veio com as malas, decidido a ficar caso não houvesse um acordo. Perderam o jogo para o MAC por 3x1 e Marçal resolveu não voltar. Foi a sua última partida como treinador. Depois disso, ainda apareceram convites, mas nenhum financeiramente interessante à altura do trabalho dele. Um exemplo de profissional que se valoriza dentro do esporte...

 Marçal no Moto Tricampeão Maranhense em 1983

Nenhum comentário:

Postar um comentário