segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Nélio, um exemplo que veio de Coroatá


Matéria de Edivaldo Pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão, de 13 de Setembro de 1999

Seleção Maranhense x Santos, em 1967.Em pé: Manguinho, Paulo, Alzimar, Alvim da Guia, Nélio e Corrêa; Agachados: Isaac, Cândido, Barrão e Pelezinho

O maranhense ainda sente orgulho da safra de excelentes jogadores de futebol surgidos em décadas passadas. Mas não foram todos que reuniram qualidades como um inesquecível meio-campista do Maranhão Atlético Clube de 1956 a 1959. Nélio de Carvalho Ribeiro, em pouco tempo de carreira, mostrou inúmeros talentos: era hábil na distribuição de bolas, decidido ao partir para o ataque, inteligente para armar jogadas e, acima de tudo, um amigo. Foi procurado por dirigentes de grandes equipes do país, inclusive pelo Vasco da Gama/RJ, no tempo de Belini, Orlando, Pinga, Leivinha, Coronel e do meia Valter Marciano, que ia embora para o Real Madrid e queriam alguém para substituí-lo. Para Nélio, os dirigentes, que só pensavam em ganhar dinheiro com a venda do passe dele, terminaram atrapalhando seu futuro promissor.

Nélio nasceu em Caxias/MA(28/02/1937) e foi, com apenas três anos, para a cidade de Coroatá. Na década de 50 fundou ao lado de Osvaldinho, Leodinha, Bulau, José Amorim, dente outros, o Bangu coroatense. Jogava como ponta-direita.

Todo mundo sabia que Nélio era craque. Confiante nesse talento, o cunhado Antônio Ferreira Novaes, já falecido, trouxe-o para um teste no Maranhão Atlético Clube em 1956. Na mesma semana ele estreava contra o Sampaio Corrêa com vitória. A torcida aprovou a contratação e a imprensa de São Luís teceu altos elogios. Também, pudera. Com seus 19 anos, Nélio jogava com extrema facilidade como falso-ponta, que sempre seguia pelo meio-campo, armando as jogadas para o time ao estilo Zico e Rivaldo. Além de excelente tecnicamente, era considerado muito inteligente, capaz de antecipar jogadas, colocando a bola aonde queria.

A partir daí a carreira do jogador foi de sucesso, apesar da falta de títulos. Como frequentemente os clubes estaduais da época organizavam amistosos contra equipes do eixo Sul/Sudeste, ele teve a oportunidade de atuar no MAC, moto e Sampaio, jogando contra os craques Didi, Nilton Santos, Garrincha, Tomé Quarentinha e Beto (Botafogo/RJ), Zizinho e Zózimo (Bangu/RJ), Carlos Alberto Torres, Pelé, Clodoldo, Edu, Orlando, Peçanha, Zito (Santos/SP), Belini, Orlando, Pinga, Leivinha, Coronel, Valter Marciano (Vasco da Gama/RJ), além de outros times nordestinos e nortistas.

O jogo Seleção Maranhense x Botafogo/RJ até hoje está vivo em sua memória. Apesar da derrota por 2x0, Nélio terminou ganhando dinheiro do saudoso dirigente maqueano e botafoguense Valério Monteiro. “Seu Valério disse que eu não conseguiria ultrapassar o mestre Didi. Além do dinheiro, ainda passei um bom tempo gozando dele”, relembra.

Outro jogo marcante: Sampaio x Vasco, em 1959. Nélio, cedido por empréstimo, jogou o fino da bola ao lado de Dodó, Mão Levada, Milson, Arlindo, Terrível e Vareta (Serra); Marcos e Rack; Louro (Nélio), Henrique Santos, Pirrita e Garcia. A Bolívia Querida marcou primeiro, através de Pirrita, na cobrança de pênalti claro, marcado firmemente pelo árbitro Leôncio Rodrigues. O chamado super-super campeão carioca empatou. O Sampaio fez 2x1 através de jogada de Nélio, que veio pela direita, driblou Ortuno (substituindo Coronel), passou por Orlando e quando Belini e Hélio (goleiro) saíram em cima dele, a bola ficou batendo. Henrique Santos, no bolo, marcou o gol. O Sampaio cedeu o empate, mas o resultado de 2x2 foi considerado tão brilhante que a torcida invadiu o campo para comemorar a atuação do grupo.

O talento mostrado por Nélio foi seu grande diferencial. No dia seguinte o técnico vascaíno Martin Francisco quis obter informações sobre ele. Um mês depois chegava a passagem para o maranhense ir para o Rio de Janeiro. Mas, segundo Nélio, o MAC pediu tão alto pelo passe que a transação não pode ser feita. “Eu era da categoria não-amador, mas havia assinado um contrato em branco. Quando a diretoria do Vasco perguntou sobre o valor do meu passe, o MAC cobrou 100 contos de réis, muito dinheiro para a época”. Essa foi a grande decepção.

Nélio sempre quis um emprego bom, já que o futebol maranhense era muito pobre e não dava para ganhar dinheiro com a profissão, pelo menos no estado. Muitos dizem que se ele tivesse ido jogar no Vasco da Gama, com certeza teria se dado bem. No mesmo período, Porquinho (Maranhão), do Sampaio, viajou para o Rio de Janeiro e ficou no Vasco da Gama. Nélio voltou para Coroatá, onde foi trabalhar nas lojas Pernambucanas.

Para não perder o contato com a bola, jogava no Santa Cruz, de Walter Polary. Vinha a São Luís apenas quando era convocado para defender a Seleção Maranhense, já que ninguém podia ignorar um meia do quilate dele. Atuou ao lado de Walber Penha, Hamilton, Esmagado, Barrão, Zuza, Peru, Santana, Pelezinho, Garrinchinha, Nabor, Vivico, Neguinho, Alvim da Guia, Carlos Alberto, Laxinha, Neto, Alzimar, etc.

Por volta de 1968, com 31 anos de idade, foi chamado pelo Ferroviário Esporte Clube, de São Luís, onde jogou até meados de 1970. Passou a ser auxiliar técnico, conquistando seu único título estadual em toda a sua carreira, em 1971. No ano seguinte ficou como técnico no lugar do treinador Jordam. Foi campeão do Torneio Cidade de São Luis. Parou depois disso.

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