sábado, 20 de setembro de 2014

ÁUDIO - Entrevista com Marçal Tolentino Serra no Programa "Panorama Esportivo", da Rádio Difusora AM 680


Deixo hoje uma excelente entrevista do jornalista José de Ribamar Furtado com o treinador campeoníssimo Marça. Tolentino Serra, ao ar no dia 18 de setembro, no Programa "Panorama Esportivo", da Rádio Difusora AM 680. 

Ribamar Furtado e Marçal (fonte: acervo pessoal José de Ribamar Furtado)

ÁUDIO 


MARÇAL TOLENTINO SERRA




Marçal Tolentino Serra, o mais vitorioso treinador do nosso futebol: Campeão Maranhense pelo MAC (1970), Ferroviário (1971), Sampaio Corrêa (1972) e Moto Club (1974, 1981 e 1983); Campeão Piauiense pelo Tiradentes (1973); Campeão do Brasileirinho (1972) e do Torneio Maranhão-Pará (1972) pelo Sampaio Corrêa; Campeão do Torneio Intermunicipal pelas Seleções de Ribamar (1972) e Codó (1994). Treinou ainda o Vitória do Mar, Expressinho, Caxiense, Nacional de Codó e o Flamengo do Piauí. Foram mais de doze títulos e seis vice-campeonatos ao longo de mais de 35 anos como técnico. Era contratado, na maioria das vezes, para tirar equipes do sufoco. E conseguia. Dizia um jornalista cearense que ele tinha ‘um dedo mágico’. Essa era o perfil do treinador Marçal Tolentino Serra, o maior vencedor dentro da história do futebol maranhense – e nenhum outro conterrâneo conseguiu brilhar como ele. A sua vida como treinador baseou-se muito na observação e pouco nos livros. Sua técnica restringia-se a observar seus adversários para depois traçar um esquema que pudesse anulá-los em campo. A fórmula de tanto sucesso parece simples. E foi. Não à toa, Marçal cravou em definitivo o seu nome na galeria dos maiores e mais respeitados desportistas do nosso futebol.

O colecionar de títulos, ao contrário do que muitos pensam, teve uma vida muito curta nos gamados. Aos 11 anos de idade e já órfão de pai e mãe, Marçal foi internado no Colégio de Serviços de Assistência aos Menores Infratores, onde iniciou o aprendizado em motores de luz. Paralelo ao trabalho, ele ia aos finais de semana jogar futebol no campo do Tabocal, no Apicum. Jogador Mediano, gostava de atuar pela meia-direita ou de centroavante. Aos 15 anos passou pelo Esporte Clube Recife, do Centro de São Luís, e aos 17 estava nas equipes inferiores do Sampaio Corrêa, na década de 1950. No Tricolor, ele começou a jogar na condição de não-amador, quando a Bolívia Querida era dirigida pelo radialista Jafé Nunes. Em seguida, Marçal foi para o antigo Território do Amapá, onde morou durante onze anos e montou uma oficina para trabalhar para o Governo Federal. Paralelo ao serviço, também jogava futebol no Amapá Club, equipe da capital e que ainda atuava no regime amador. Marçal ainda jogou pelo Santana, equipe pertencente à companhia norte-americana de mineração, agora como quarto-zagueiro e por onde foi Tricampeão Estadual (1960/61/62), curiosamente os seus únicos títulos como atleta. Retornou a São Luís após pedir indenização na companhia amapaense.

No final de 1963, já com 27 anos, foi levado por Santiago, ex-atleta do Moto, para treinar no rubro-negro. Naquela época, Marçal passou a fazer parte de um time interno da antiga Aprendizagem Agrícola, atual UEMA, onde Santiago, instrutor físico dessa instituição pela década de 1940, também jogava, mas escondido, por ser profissional do Moto (Bodinho, recordista de gols em uma única partida de futebol no Brasil atuando pelo Sampaio Corrêa, também jogou na Aprendizagem Agrícola). Em seguida, Reginaldo o convidou para treinar no Ícaro, time mantido pela Base Aérea do Tirirical e tendo como Presidente o Tenente Sebastião Araújo. Depois de reforçado, o time chegou à divisão principal do Estadual, destacando-se na equipe alguns bons atletas, como Chita, Reginaldo, Sapeca (com passagem pelo Sampaio), Cabeça, Urânia e Esmagado. Marçal era o jogador mais caro do elenco. Porém, um ano e meio depois o Ícaro foi à falência.

No início de 1967, o Graça Aranha ressurgiu para disputar o Estadual daquele ano. Marçal foi o grande reforço do GAEC para as disputas, atuando como zagueiro central. Porém, no início da competição, foi obrigado a largar o time para se submeter a uma cirurgia de apêndice que havia supurado. Aconselhado pelo médico a não jogar mais futebol, se aposentou. O fator idade (30 anos) também pesou para o encerramento da sua curta passagem como atleta.

Antes de se recuperar da cirurgia, os dirigentes resolveram aproveitá-lo para o cargo de treinador da equipe. O GAEC chegou a decidir o título contra o Moto. Perdeu, mas Marçal se sentia feliz porque havia descoberto a maneira para continuar com sua grande paixão. Tratava-se da decisão do Primeiro Turno do Estadual de 1967, ano da sua primeira experiência como treinador. Na ocasião, o Moto empatou sem gols com o Graça Aranha e, por ter o melhor saldo de gols, ficou com o título daquela fase. Marçal deixaria em seguida o chamado Clube Milionário, sendo substituído por Walber Penha no comando. Após o GAEC, Marçal foi contratado pelo Papão, em Junho de 1968. Ele, que já havia sido contratado para a função de treinador do rubro-negro em substituição a Rinaldi Maia, estava nas arquibancadas, para observar os atletas motenses. O GAEC vencia por 1 a 0 após as expulsões do goleiro e do o zagueiro do Papão. Os diretores do Moto, então, pediram a Marçal que desse algumas instruções a Ananias, treinador à beira do campo. Ao final do primeiro tempo, ainda perdendo o jogo, Marçal foi ao vestiário e tomou de conta do time. O Graça Aranha passou a jogar na retranca, explorando os contra-ataques; o Moto virou e ganhou aquela partida por 2 a 1, com o dedo de Marçal. O Moto foi Tricampeão Maranhense naquele ano, com sobras.

Com características particulares, Marçal era conhecido como um técnico enérgico, às vezes grosso. Mas sempre ficava do lado do atleta quando esse tinha razão. Era o tipo do treinador amigo nas concentrações, brincava e até bebia com os atletas. Em véspera de jogo, porém, exigia profissionalismo dos atletas (em resumo, que todos se resguardassem da farra no dia anterior a algum jogo). E não faltava nenhum jogador, pois quando Marçal chegava ao treino, geralmente após dar alguma corrida em seu táxi, já encontrava os jogadores devidamente uniformizados e reunidos no Santa Izabel. Essa era o estilo Marçal de treinar e se envolver diretamente com o elenco.

Independente financeiramente (montou uma frota de táxi e mantinha essa atividade paralela ao futebol), tirava muitas das vezes dinheiro do próprio bolso para ajudar quem ia lhe pedir auxílio. O seu último clube como treinador foi o Viana, em 2001, a quatro dias da estreia do Estadual daquele ano. Com os resultados negativos logo nas primeiras partidas, corria na cidade a história de que ele havia perdido propositalmente em virtude do não acerto com relação ao seu salário no Viana, já que, dias antes em uma entrevista na rádio local, Marçal havia reclamado da falta de acerto financeiro. Na disputa pelo título do turno contra o MAC, em São Luís, o Presidente do clube da Baixada ainda não o havia chamado para uma conversa sobre o acerto salarial. Marçal chegou com as malas, decidido a ficar caso não houvesse um acordo. O time perdeu o jogo por 3 a 1 e Marçal resolveu não voltar. Foi a sua última partida na condição de treinador. Depois disso, ainda apareceram convites, mas nenhum financeiramente interessante à altura do seu merecido trabalho. Um exemplo de profissional que se valoriza dentro do esporte.

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