sábado, 27 de setembro de 2014

Augusto, lateral técnico e virtuoso


Matéria de Edivaldo Pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão, de 19 de Julho de 1999

Ferroviário Esporte Clube campeão maranhense de 1957. Em pé: Gentil, Peruzinho, Augusto, Santos, Walber Penha e Ribeiro Garfo Pau; Agachados: Pitú, Neto Peixe-Pedra, Waltair, Frango e Vicente

Augusto Carlos Freitas Parga foi criado por uma tia/madrinha que morou na Camboa e Monte Castelo, bairros de São Luís e em São José de Ribamar, cidade balneária que fica a 35 km do centro da capital maranhense. Começou a jogar aos 12 anos de idade e, anos 23 anos, conquistou o título estadual defendendo a “máquina” montada pelo Ferroviário esporte Clube, em 1957. Por ser baixinho, Raçudo e canhoto no pé, foi apelidado por Bebeto, companheiro de clube, de Pecoré. Quem o viu em campo afirma que ele era respeitado até pelas torcidas adversárias. Era um lateral-esquerdo técnico e viril.

A história de Augusto começa quando os pais dele e mais oito irmãos deixam São Luís em 1937 e vão para o Rio de Janeiro. Apenas ele (dois anos de idade) ficou sob a tutela da tia/madrinha Morena, que morava na Rua Viana Vaz, no Bairro da Camboa. Por volta dos 10 anos começou batendo peladas descalço com amigos. Ao completar 11 anos, mudou-se para o bairro do Areial (hoje Monte Castelo).

Em 1949, quando já estava com 14 anos, Augusto foi chamado para jogar no Íbis do Areial, ao lado do goleiro Cambota, do meio-de-campo Oscarzinho e do centroavante Professor. “Eles eram os craques do íbis. Eu cheguei para jogar na lateral-esquerda e aos poucos fui conquistando meu espaço no time”, relembra.

Em 1950 o Prefeito de São José de Ribamar, Amadeu Freitas, tio de Augusto, convidou o sobrinho e a tia/madrinha Morena para se mudarem para lá. Eles aceitaram o convite. Neste mesmo ano Augusto começou a jogar no Palmeiras, time respeitado na cidade e nos municípios vizinhos. “Lá tive o prazer de jogar ao lado de Reginaldo Fofão, Minguinho, Vicente (goleiro) e Neto, que depois veio a assinar contrato com o Moto Club, Maranhão, Ferroviário e Paysandu do Pará. Ele sabia de bola”.

Durante três anos, Augusto se destacou como lateral-esquerdo e zagueiro do Palmeiras de São José de Ribamar. O que chamava atenção dos torcedores era como aquele baixinho (1m60 e 63 quilos) pudesse ser tão esperto na defesa. Chegava junto dos atacantes e era Raçudo e zangado (quando gaguejava, era melhor sair de perto dele). Não abria pra ninguém. Quando tomava uma pancada, passava terra no lugar batido e continuava jogando. Tinha uma excelente impulsão, o que acabava compensando a falta de altura. Além de tudo, fazia seus gols porque chutava forte com a perna esquerda e cabeceava bem, Era técnico.

Em 1953, Jafé Mendes Nunes, radialista e jornalista esportivo que avia assumido a direção técnica da Seleção da cidade de Anajatuba-MA, soube que o Palmeiras de São José de Ribamar tinha muita gente boa que poderia reforçar sua equipe no Torneio Intermunicipal. Ele pegou seis jogadores do Palmeiras: Augusto, Hildebrando, Vicente, Miranda, Reginaldo e Fuzica. O time ficou em terceiro lugar no torneio, atrás de Rosário (campeão) e Morros (vice-campeão). O resultado técnico foi tão bom na competição que vários atletas das seleções de Rosário, Morros e Soa José de Ribamar acabaram sendo contratados pelas equipes profissionais de São Luís. Augusto foi para o Ferroviário. O goleiro Juraci e o centroavante Ferreirão trocaram a seleção de Rosário pelo Maranhão Atlético Clube. O lateral-esquerdo Ribamar, da Seleção de Morros, foi para o Sampaio Corrêa, e o seu companheiro, o ponta-direita Zezico, pai de Oliveira, que hoje joga na Fiorentina, foi para o Moto Club.

Augusto chegou no Ferroviário no segundo semestre de 1953. Foi trabalhar na Estrada de Ferro para assegurar um salário melhor e assinou contrato como “não-amador” para disputar o campeonato estadual pelo clube dos funcionários da REFFSA. Entrou na posição como uma luva, jogando ao lado de Dodó, Carapuça (que era seu ídolo), Gentil, Bebeto, Quadrado, Vicente, Waltair, Frango, Cleoci e Esmagado. O time era bom, mas não ganhava campeonato. O único título veio em 1957 e de forma espetacular e incontestável porque o time do Ferroviário era uma verdadeira máquina. “O goleiro era o lendário Walber Penha. Ai vinha Ribeiro Garfo de Pau, Santos, eu e Esmagado; Zuza, Toquinha e Neto; Pitú, Hamilton e Nabor. E tinha ainda Peruzinho, Gentil, Negão e outros. Além dos atacantes, ainda tínhamos Santos, que era um zagueiro artilheiro”.

No ano seguinte, o Ferroviário conquistou o bi. Augusto, que havia sofrido uma forte contusão nos meniscos do joelho direito, não participou da campanha. “Tive que ficar de fora desta conquista inédita do Ferrim. Nesta temporada, ganhei o título de primeiro atleta profissional maranhense a se submeter a uma cirurgia do joelho. Quem me operou foi o dr. Damasceno Figueiredo”.

Um fato curioso desta época contado por Augusto é que atleta, quando se machucava com uma certa gravidade, deixava o campo e ia para o Pronto Socorro Municipal, fazia um curativo qualquer e retornava ao campo e continuava jogando normalmente. “Quando as contusões eram simples, jogavam um éter no local afetado e voltávamos a jogar na hora. Eu substituía o éter por terra ou areia dos próprios campos em que jogava”.

Em 1959, depois da recuperação da cirurgia no joelho, Augusto ainda treinou no Moto Club durante uns quatro meses. Por lá encontrou Casquinha e ex-amigos que haviam deixado o Ferroviário, como Esmagado, Hamilton, Nabor e Laxinha. O joelho voltou a incomodar e Augusto, 24 anos de idade, foi obrigado a interromper uma carreira que poderia ser muito mais gloriosa, mas, segundo ele, “foi a vontade de Deus”.

Nos anos seguintes, ficou jogando amadoristicamente no América de São José de Ribamar, dirigido pelo filho de José Raimundo Lobato, que era coletor na cidade. “Ele me arrumou um emprego como fiscal da Prefeitura e do Estado. Em 1963 restei concurso para a Campanha de Erradicação de Malária – CEM – que depois virou Sucam – FNS, onde me aposentei em 1994, depois de juntar os tempo de serviços como atleta profissional, funcionário da REFFSA e FNS”.

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