quarta-feira, 19 de março de 2014

Heraldo Gonçalves "Trivela"

Texto extraído do jornal O Estado do Maranhão, de Agosto de 1999 (Edivaldo pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão).


“Já não se faz mais crioulo de defesa como a gente”. Esse comentário foi de Neguinho para Heraldo, jogares de futebol de campo (zagueiro e lateral-esquerdo) que ficaram conhecidos pela garra, pela forma dura de jogar, que intimidava atacantes. Jogara juntos no Ferroviário e no Sampaio, na década de 70. Heraldo, mais habilidoso e veloz, desmoralizava alguns pontas-direitas e brincava na hora de apoiar seu ataque. Muitas vezes chegou a ser taxado de irresponsável, por causa do jeito moleque de fazer cruzamentos e cobrar escanteios de trivela. As derrotas por conta disso foram doídas. Mas até hoje ele continua fazendo a mesma coisa no sênior.

Heraldo era peladeiro de futebol dos campos da Roma Velha, bairro paralelo ao Monte Castelo. Nutrido a caldo de sururu do porto do local, o garoto era hábil no meio de campo e sua agilidade chamava a atenção dos torcedores. Alegre e brincalhão, sempre que podia fazia uma graça com a bola, dando dribles desconcertantes, chapéus, sempre de um jeito brincalhão, que ninguém dava tanta importância.

No dia que foi embora o volante Zé Carlos, juvenil do Sampaio, o jeito era encontrar um substituo. Vareta já conhecia Heraldo. Para não dar muita bandeira, resolveu convidá-lo para bater uma bola. Só não disse onde. Jogaria no Estádio Santa Izabel, na preliminar contra o MAC, que tinha como meio-campistas os craques Yomar e Santana. Quando chegou ao estádio, Vareta disse a Heraldo que o Tricolor precisava de um jogador como ele. O cara tremeu. “Joga do mesmo jeito da pelada”, pediu Vareta. Aceito o desafio, foi o que fez o garoto Heraldo, 16/17 anos de idade. Na saída do Sampaio, o moleque irresponsável driblou Santana e passou para o companheiro de meio-campo, Parode. A vitória por 3 a 1 já dava dimensão do grande futuro que o jogador e seus companheiros teriam pela frente. Dentre outros, estavam jogando Djalma Campos, Fifi, João Bala, Pompeu, Cadinho e Vareta. Com esse time Heraldo foi bicampeão da categoria.

Por volta de 1964 já era um jogador de banco profissional. O time tinha Manga; Nivaldo, Valfredo Carioca, Damasceno, Roberto, Maneca, Chico, Sabará, Jarbas e Antonino. No ano seguinte, o dirigente Antônio Bento Cantanhede Faria vendeu todo o time do Sampaio para o Ceará. Subiu a garotada do juvenil para marcar a história do futebol maranhense.

Em 1968 Heraldo estava no Ferroviário. Em 1970 voltava ao Sampaio, sempre jogando sua razoável bola. Quando o clube preparou um timaço para disputar o Brasileirinho, foi contratado o craque maranhense Gojoba, depois de brilhar em vários campos defendendo o Sport Clube Recife e o Ceará. Gojoba assumia a cabeça de área. Heraldo teve que amargar o banco, ficando na posição de coringa: onde precisava, ele entrava, até mesmo pela sua versatilidade. Foi peça importante na conquista do título.

Depois disso,em uma excursão do Sampaio em Belém, o lateral-esquerdo Romildo se machucou. Djalma Campos, que era uma espécie de xerife, pela liderança, experiência e visão de jogo, deu a camisa 6 para Heraldo. “Lateral-esquerdo eu?”, perguntou. “Quem sabe jogar entra em qualquer posição”, retrucou Djalma. Começava outra fase do jogador. Ele marcou duro o ponteiro paraense Zé Hídio e o Tricolor saiu com a vitória por 2 a 1, gols de Zé Carlos.

Virilidade, raça, agilidade nos contra-ataques, passaram a ser sua principal característica, assim como amaneira como intimidava os pontas-direitas, ora jogando duro na bola, ora ameaçando dar porrada.

Ele conta que respeitou apenas Euzébio, do MAC. “Contra Euzébio eu tremia na base e procurava não vacilar, porque senão ele poderia dar um show em cima de mim”. Mas era só contra Euzébio. Os outros pontas Heraldo chamava de ponta de cigarro, mostrando o jeito moleque herdado nas peladas. “Professor Pardal”, “Fricote”, “Trivela” viraram apelidos pela maneira como ele atuava em campo, sempre inventando nos contra-ataques, lançamentos e cobranças de escanteio. Mesmo advertido pelos treinadores, não mudava sua maneira de ser. “Do jeito norma não tinha graça e a torcida não vibrava”, justifica. Mas essa forma de jogar causavam alguns problemas, porque quando ele perdia a bola e saia um gol do adversário, levava a culpa. Isso aconteceu no jogo contra o Guarany de Sobral. O empate em 2 a 1 era um bom resultado. Heraldo foi fazer um cruzamento de trivela e errou, o adversário foi lá e marcou 3 a 2.

Em partidas diante do Flamengo de Teresina foram as suas piores atuações. Jogando lá, o time perdeu de 1 a 0, gol do ponta-direita Caveirinha em cima de Heraldo. Quando o clube piauiense veio jogar aqui, a gozação começou no vestiário. “Teu pai ta ai”, diziam os companheiros. Dez minutos de jogo, Flamengo 1 a 0, gol de Caveirinha. Deu vontade de pedir para sair. No intervalo, o técnico Marçal Tolentino Serra fez Heraldo voltar e acrescentou: “Dá um jeito e anula esse sujeito”. Caveirinha continuava melhor. Em uma bola do ataque adversário, Heraldo, já de cabeça quente, resolveu tirar de bicicleta. A chuteira foi na boca de caveirinha, que saiu de campo com a dentadura postiça toda quebrada e a boca sangrando. “Fui desleal e me arrependo disso até hoje. Soube depois daquele acidente que Caveirinha ficou 40 dias hospitalizado. Se eu pudesse, pediria desculpas a ele”. Com a saída de Caveirinha, o Sampaio venceu por 2 a 1. Todo mundo podia dizer muita coisa de Heraldo, mas desleal, não! O fato marcou a vida do atleta, que pouco depois parou de jogar.

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