sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Hamilton Sadias Campos, a lenda viva do futebol maranhense


Hamilton Sadias Campos, além do maior artilheiro do futebol maranhense, é considerado até hoje como um dos melhores atacantes dos últimos tempos em nosso futebol. Hamilton sempre foi um ilustre desconhecido para boa parte dos torcedores dos maiores centros do país. Contudo, para os torcedores de Tuna Luso (PA), Ferroviário, Santa Cruz (PE), Moto Club e Maranhão, ele é uma figura mais do que admirada, onde alcançou a invejável soma de 499 gols, o que o coloca na condição de 10º maior artilheiro em todos os tempos do futebol brasileiro e o recordista em todo o Nordeste. À sua frente, Pelé, Zico, Roberto Dinamite, Cláudio Adão, Dadá Maravilha, Friedenreich, Pinga, Sima e Valdo. Na região Nordeste, Hamilton é superado apenas pelo centroavante Sima, o maior goleador do futebol brasileiro no eixo Norte-Nordeste. O "Pelé do Piauí", cmo ficou conhecido, marcou exatos 529 gols entre 1966 e 1992, período em que atuou profissionalmente. Ele alcançou a incrível marca de ser o artilheiro do Campeonato Piauiense por dez vezes e em 1977 foi o maior goleador dos Estadual em todo o Brasil, com 33 gols. Quem olha Hamilton com toda a sua humildade e paciência, jamais imagina que se trata de um dos maiores goleadores que o futebol brasileiro já teve a chance de ver. Era jogador de dar vitórias ao time, por isso nunca ficou no banco de reservas, nunca! E, acreditem, nunca ficou fora de uma partida por contusão. Segundo o próprio Hamilton, “quem joga sempre na bola, dificilmente é atingido pelo adversário”. Desde quando encerrou a carreira, até hoje, nunca apareceu um jogador como Hamilton.

Paraense de Mosqueiro, Hamilton nasceu no dia 03 de Dezembro de 1934. Começou a sua vida de atleta pelo juvenil pela Tuna Luso Comercial, em 1955, com apenas 18 anos de idade e atuando como ponta de lança. O jogador China, da própria Tuna, ao observá-lo jogando uma pelada em Belém, percebeu suas qualidades técnicas e não teve dúvidas em levá-lo para a equipe tunante. Após vários títulos pela categoria de base, Hamilton foi promovido ao time principal, em 1956, onde sempre entrava no final do jogo e arrebentava. Pela equipe tunante marcou 28 gols. De acordo com informações1, em uma excursão pelo Nordeste, em 1957, a Tuna jogou em São Luis contra o Sampaio Corrêa, que havia perdido e marcou a revanche para dali a alguns dias. Como o centroavante Estanislau havia adoecido, colocaram Hamilton como titular, no jogo disputado no dia 26 de Maio de 1957. Quatro gols no empate em 4x4 contra os Tricolores foram o bastante para despertar o interesse da diretoria do Ferroviário pelo futebol do jovem goleador. Os mandatários do clube férreo, já naquela época, tinham a visão que os dirigentes de hoje não têm: resolveram desembolsar uma vultuosa quantia e apostar na contratação de um excelente jogador. Foi Clóvis Viana, diretor do Ferrim, que o viu jogando e resolveu comprar o seu passe, que pertencia ao time de Belém. Hamilton recebeu cerca de Cr$ 100 mil por dois anos e meio de contrato.

O artilheiro passou cerca de um mês apenas treinando e se habituando ao novo clube, até estrear contra o Sampaio Corrêa, na decisão do Primeiro Turno do Campeonato Maranhense de 1957, no dia 07 de Julho. Naquela época o chamado time da Refesa tinha um bom elenco, formado por jogadores maranhenses e alguns atletas importados, que vieram dar força ao time. A base do Ferroviário era a seguinte: Penha; Ribeiro, Santos, Negão e Esmagado; Zuza e Bebeto; Pitu, Valteir, Hamilton e Neto. Logo na estréia, contra o time Tricolor, Hamilton já mostrou o porquê seria um goleador nato. O Sampaio Corrêa fez 2x0 e Hamilton, ainda acanhado, não fez quase nada. A torcida boliviana começou a pegar no pé do atacante, gritando em côro: “Cadê os cem contos, cadê os cem contos?”. No início do segundo tempo Ribeiro fez logo um gol, o Ferroviário se animou e foi então que o artilheiro, de um temppramento calmo, se transformou, mostrando o seu verdadeiro futebol: marcou logo três gols e o Ferrim ficou com a taça de campeão.

No ano de 1959, por causa de problemas administrativos e aproveitando momento de discórdia com a Federação, a diretoria do Ferroviário Esporte Clube deixou de competir e desativou o time de profissionais. Assim, depois de ter sido bicampeão, os dirigentes do Ferrim não resistiram à proposta tentadora do Santa Cruz-PE e acabaram vendendo o ídolo por trezentos mil réis. No time pernambucano, Hamilton foi logo sendo campeão pernambucano e o artilheiro do campeonato. Detalhe: ele chegou no meio da competição e o principal goleador, àquelas alturas, tinha oito gols. No Santa Cruz Hamilton permaneceu até 1962, após 71 gols pelo time pernambucano. O presidente do Moto Club, Salomão Mata, o trouxe ao rubro-negro maranhense por empréstimo, em 1963. E chegou logo mostrando serviço: foi artilheiro daquele ano, com 20 gols. Belas suas belas atuações naquela competição, Hamilton foi convocado para a Seleção Maranhense, onde também foi artilheiro. No Papão, o craque foi Tricampeão Maranhense (1966/67/68). A técnica refinada, aliada a uma boa colocação e senso de oportunismo, só encontrados nos grandes centroavantes, fez Hamilton sinônimo de gol. Em três oportunidades ele terminou a temporada no topo da artilharia do Campeonato Maranhense pelo Papão: 1963, 20 gols; 1964, 8 gols; 1966, 20 gols (em 1969 ainda foi o artilheiro, desta vez jogando pelo MAC, com 6 gols, ao lado de Gimico, do Ferrim).

Hamilton encantou o futebol nordestino com simplicidade e muita mística. Encontrou no Moto Club a sua melhor fase, onde deixou muitas passagens curiosas e gols para a eternidade. Foi pelo rubro-negro, aliás, que ocorreu um dos confrontos mais particulares do nosso futebol: em 1963, num roteiro à altura das melhores histórias do futebol brasileiro, Hamilton protagonizou com o lendário atacante Croinha, do Maranhão Atlético Clube, uma disputa pela artilharia do Campeonato Maranhense até a última rodada. Antes dos jogos finais, ambos estavam empatados com 14 gols. O jogo de Croinha era preliminar e ele marcou cinco gols. Nem os mais otimistas torcedores do Moto Clube acreditavam que Hamilton pudesse alcançar seu rival, mesmo sendo a partida derradeira contra o pequeno Ícaro. No decorrer do jogo, os gols foram saindo, um a um. Quando Hamilton chegou a quatro gols, a torcida passou a gritar: “mais um, mais um!”. Numa bela cabeceada, o artilheiro igualou-se a Croinha (19 a 19), mas ainda dava tempo para passar o rival. Hamilton marcou pela sexta vez, após driblar dois zagueiros e o goleiro, colocando a bola dentro do gol com um leve toque, dando fim ao duelo com Croinha.

É também de Hamilton o gol mais rápido da historia do Campeonato Maranhense, quando ele ainda defendia o Moto Club. Em um clássico contra os maqueanos, Hamilton deu a saída e correu para a área. A bola foi tocada para o lateral, que fez o cruzamento e Hamilton, de primeira, emendou sem nenhuma chance para o goleiro. O placar estava aberto antes de o cronômetro do árbitro marcar 10 segundos. Até hoje, quando recorda os maiores momentos de sua carreira, o ex-atacante fala com prazer do gol relâmpago. Segundo o próprio Hamilton, o gol mais bonito que ele fez na carreira foi atuando pelo Moto, durante uma partida onde o Papão recebeu as faixas de campeão maranhense de 1966, contra o Remo: Hamilton recebeu um cruzamento da direita, deu um drible de corpo nos zagueiros Nagel e Alemão (os dois ficaram estatelados no chão), ameaçou o goleiro, que se jogou e, com um toque sutil, fez um golaço. Nagel era um zagueiro pernambucano. Após uma grande atuação pelo Santa Cruz, no final da década de 1950, foi negociado com o Botafogo carioca. Nessa época, o time do Rio de Janeiro tinha em seu plantel nomes como Nilton Santos, Zagallo e Garrincha. Após perder espaço no clube da estrela solitária, Nagel começou uma peregrinação por diversos clubes dentro e fora do Brasil e o Remo foi a sua primeira casa após a saída do Botafogo. Pelo gol de Hamilton, foi prometida uma placa a ser colocada no Nhozinho Santos, mas isso nunca aconteceu. Nessa época era administrador do estádio o futuro deputado Carlos Guterres.

No dia 21 de Julho de 1968, no amistoso Moto Club 1x1 Flamengo-RJ, Hamilton realizou a sua última partida pelo Papão. O contrato dele havia vencido, mas poderia ser renovado. Porém, o artilheiro preferiu disputar o Segundo Turno do Campeonato Maranhense pelo Ferroviário, que lhe fez uma proposta melhor. Hamilton já havia sido Tricampeão Maranhense pelo Ferrim e, nas três temporadas em que defendeu a equipe (1958/1959 e 1969), chegou à marca de 37 gols. Hamilton, segundo informações2, saiu do Moto aos 35 anos, pois os dirigentes o consideravam velho para o time. Pelo rubro-negro, alcançou a incrível marca de 244 gols.

Em três anos jogando pelo time do Parque Valério Monteiro (1969/70/71), marcou exatos 104 gols. Os últimos torcedores que tiveram a oportunidade de vibrar com os gols de Hamilton, foram os do Maranhão. Em 69 e 70 ele foi bicampeão pelo MAC e em 71, numa partida entre Moto x Maranhão, o paraense hoje considerado maranhense de coração fez a sua despedida do futebol, segundo consta3, com uma grande festa organizada pelo Maranhão Atlético Clube, no combinado Moto/MAC: o artilheiro, aos 37 anos de idade, atou cada tempo pelas duas equipes. No intervalo da partida, recebendo o justo aplauso, Hamilton deu a volta olímpica com as chuteiras nas mãos. Clubes e entidades se associaram às manifestações de todos pela despedida de Hamilton dos gramados, atribuindo-lhe as maiores homenagens que um jogadores já recebeu em nossa capital, com uma série de presentes até mesmo do Sampaio Corrêa (o jogador nunca vestiu a camisa do Sampaio. Segundo Hamilton, houve até a oportunidade, mas quando redigiram o primeiro contrato, os dirigentes bolivianos acharam que o artilheiro havia pedido muito dinheiro e as negociações não foram adiante). A renda do jogo, disputado no dia 08 de Dezembro de 1971, foi toda revertida para Hamilton, que decidiu abandonar os campos por conta do futuro, já que, nesse tempo, o futebol não era rentável. Alguns dias antes, Hamilton foi homenageado na partida entre Santa Cruz de Recife e Moto Club, no Nhozinho Santos: antes do início do jogo, realizada no dia 02 de Dezembro, a delegação pernambucana homenageou-lhe, entregando a Hamilton uma flâmula e com o mesmo dando o pontapé inicial da partida.

Segundo o próprio Hamilton, foi feita uma pesquisa e ficou comprovado que ele fez exatos 1.048 gols, embora o ex-goleador ache que fez muito mais (pela carência de provas, a marca nunca foi oficializada, infelizmente). Hamilton atuou durante 18 anos no futebol profissional, desde a Tuna até o Maranhão, tendo realizado cerca de 1.450 partidas. Na época em que jogava, a posição do atacante que dispunha das maiores oportunidades para fazer gols, era a de centroavante. Hamilton era meia-direita, uma posição em que jogam os de maior toque de bola, com mais poder de distribuição de jogo, com visão do campo. Nunca aquele que joga dentro da área, dispondo dos rebotes sem marcar. Daí acreditar-se na extrema habilidade desse fenomenal jogador. Em quatro oportunidades, Hamilton alcançou a marca de seis gols uma única partida, o seu recorde pessoal: em 15/12/1963 - Moto 11x0 Ícaro (Campeonato Maranhense); em 05/07/1964 - Moto 15x1 Nacional (Taça Cidade de São Luis); em 12/11/1966 - Moto 10x0 Nacional (Campeonato Maranhense); e em 31/12/1971 - Maranhão 8x1 Seleção de Monção (Amistoso). Ele ainda recebeu uma proposta milionário para jogar no Setúbal, de Portugal, mas o fator família falou mais alto. Após atuar pelo MAC, o artilheiro resolveu parar, mas ele próprio confessaria que poderia ter jogado por mais duas ou três temporadas.

Poucos jogadores de futebol terão merecido no plano regional tantos aplausos e tantas homenagens em suas carreiras esportivas. Pela sua contribuição não somente ao Moto Club, mas ao esporte maranhense, Hamilton Campos teve o seu merecido reconhecimento – e em vida, o que é mais importante ainda. Dentre outras manifestações, emprestou o seu nome para uma praça esportiva localizada no Parque da Lagoa da Jansen, a “Praça de Esportes Hamilton Sadias Campos”. Em Dezembro de 2004, o eterno artilheiro foi agraciado com o diploma da emenda da ordem do mérito esportivo Rubem Goulart, em uma cerimônia realizada pelo Governo do Estado do Maranhão e em parceria com a CEEMA (Conselho Estadual de Esportes do Maranhão). Nada mais justo para aquele que fez a alegria de muitos maranhenses em décadas passadas. Hamilton foi craque. E craque sabe até a hora de parar, ao invés de ficar se ridicularizando como alguns que continuam enganando ao torcedor. Pessoa extremamente introvertida, custa acreditar que Hamilton pudesse, no desenrolar de uma partida, ter a capacidade de se transformar num verdadeiro guerreiro/goleador. Mas ele o fazia. E como, só ele conseguirá explicar. Hamilton era o gol, a humildade, a categoria, o futebol. Após os gramados, trabalhou por quatro anos como auxiliar de engarrafamento na Cervamar (Cervejaria Maranhense S/A) e mais quatro anos na Brahma. Se aposentou em seguida, em 1989.

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