sábado, 30 de novembro de 2024

Entrevista com o goleiro Bacabal




Entrevista extraída do jornal O Estado do Maranhão:

Raimundo Nonato Mato de Abreu, 59 anos, casado, uma família para criar, agente arrecadador do Governa Estadual, morador da Rua São Cristóvão, no bairro de Santa Cruz, é nada mais nada menos que o famoso Bacabal, goleiro dos melhores que já atuaram no futebol maranhense.

Apesar da pequena estatura para os modernos padrões de futebol (1,65m de altura de Bacabal), ele já foi inclusive titular de selecionado maranhense por alguns belos anos em que só os momentos bons vividos com os companheiros dentro de campo valiam.

Hoje, pouco ligado ao futebol apesar de ser um filho jogando de centroavante no Maranhão Atlético Clube, Ваcabal diz não sentir mais a mínima vontade de ver o futebol maranhense, principalmente pelas constantes crises que atravessa. Acha-o muita desorganizado, com os dirigentes escolhendo sempre tirar o máximo em proveito próprio, se preocupar que destrói, aos poucos, a sua fome substancial de existência.

Funcionário ativo da Secretaria da Fazenda, Bacabal tem algumas mágoas das etéricas que sofria, por isso preocupou dissuadir o filho de ser goleiro como ele (garante que se era melhor goleiro que centroavante) porque "todo mundo só quer ver a careira do miserável". Entre os melhores goleiros do seu tempo, Bacabal citou Harry Carey - para ele um goleiro de circo -, Walber Venha, Nadinho, Joselias.

Perguntado sobre atual estágio do futebol maranhense, ele respondeu que o futebol maranhense "sempre teve crises, mas a de agora dificilmente vai ser superada porque os defeitos estão nas pessoas que a fazem. É uma questão de mudar os homens", completa.

Não acredita muito nos treinadores de goleiros por que não são professores de nada, e agarrar no gol só pode enganar quem já esteve debaixo daqueles paus, mas como pretende que no futebol de hoje ele é uma figura necessária. Lamenta profundamente o abandono a que os dirigentes submetem as categorias inferiores e diz que nos é a maior prova de que seus dirigentes não fazem a mínima questão de superar a crise.

Pessoa extremamente simples, Raimundo Nonato Matos de Abreu, o Bacabal, nos recebeu com um carinho enorme, apresentou-nos a toda a família e, numa forma de elogio e agradecimento, ele pediu para trazer sempre o melhor pelo futebol para ajudá-lo a sair da crise que foi mergulhado. Um abraço velho Race.

O ESTADO: Por que o apelido de Bacabal?
Bacabal: É porque eu nasci na cidade de Bacabal, no interior do Maranhão.

O ESTADO: Você quando veio para São Luís, veio contratado on, como muitos, velo tentar a sorte?
Bacabal: Eu jogava pela Seleção de Bacabal no Intermunicipal. E jogando aqui em São Luís, na fase decisiva, contra Vitória do Mearim, Pedreiras e São Bento. Chegamos a perder todos os jogos e num deles eu tomei seis gols. Mas graças a Deus eu me destaquei e fui convidado para vir embora para São Luis, Na época existia o Santa Isabel, um clube paralelo ao Moto Clube. Eu fiquei no Santa Isabel, mas como ainda tinha pouca idade, pude ser aproveitado pelo juvenil do Moto. Foi então que eu fui para o Moto. Voltei para o Santa Isabel e em seguida fui emprestado ao Onze Amigos, de onde, depois de conseguir uma boa projeção, voltei para o Moto e encontrei o Walber Penha e o Ruy, um paraense que depois foi embora para o Ceará. Foi então que o Moto estava dispensando alguns jogadores e eu fiquei só com o Walber Penta, que na época era o titular do Moto Clube. Ai, do aspirante eu fui promovido ao quadro titular.

O ESTADO: E isso foi em que ano?
Bacabal: Foi por volta de 1950 ου 1951.

O ESTADO: Quanto tempo você jogou no Moto e a partir de que ano você passou a titular?
Bacabal: Nós fizemos uma longa excursão pelos estados nordestinos. Jogamos em Natal. Mossoró, João Pessoa, Maceió, Fortaleza e Recife. O Ruy tinha deixado o Moto eu e o Walber Penha que ainda era o titular. Num jogo em Recife o Walber Penha se contundiu, eu entrei e joguei toda a excursão. Foram 29 dias excursionando. Quando regressamos a São Luís estava sendo preparada a seleção de amadores e me chamaram. Nós eliminamos o Pará co Piauí e nos tornamos campeões do Norte e partimos para o Rio de Janeiro para enfrentar os cariocas. Lá tomamos a primeira de 6 x 0 e a última de 9 x 1. Quando voltamos a São Luis, eu, Merci, Cosme e canhotinha fomos contratados pelo América de Fortaleza.

O ESTADO: Quer dizer, do, Moto você pulou para o América de Fortaleza, um grande clube, principalmente hoje, que tem um belo patrimônio. Lá você encontrou um excelente goleiro de nome Maciel. O que aconteceu a partir daí? Houve uma disputa pela posição? Como foi isso?
Bacabal: O Maciel jogou no América de pois de mim. Quando eu cheguei em Fortaleza, em 1952, o goleiro do América era o Rodrigues, conhecido como "Rodrigão". O América tinha um grande time. Em Fortaleza, nessa época, jogavam grandes goleiros, como o Zé Dias, o Ivan Roriz, o Jairo, o Aluísio. Eu estreei contra o Calouros do Ar e o time era: Bacabal, Menezes, Geraldo, Merci e Coroado; Pacatuba. Dorian e Pedro; Cosme, Zeca e Esquerdinha. Chegamos a ser vice-campeões.

O ESTADO: O Zeca nós conhecíamos. Era sem dúvida um excelente jogador de futebol, com um estilo parecidíssimo com o Ananias. Vocês foram campeões juntos, по América?
Bacabal: E o Zeca era um craque. Nós fomos vice-campeões. Perdemos na final para o Fortaleza, que tinha jogadores do quilate de Vareta, Piolho, Aluísio, Veras, Sapenha. O Ceará também tinha um grande time, onde despontavam Pipiu e Damasceno. Como fomos vice-campeões, fomos disputar um pentagonal em Salvador. O América foi destaque e cu joguei muito bem. Quando chegamos de volta a Fortaleza eu fui negociado com o Botafogo da Bahia, onde joguei de 1952 a 1957.

O ESTADO: Isso pelo Botafogo da Bahia..
Bacabal:
E, pelo Botafogo da Bahia. O meu time de origem era o Botafogo da Bahia, mas eu joguei pelo Vitória numa excursão por Recife, Caruaru, Campina Grande. Também joguei pelo Bahia e seleção baiana, junto com o Joselias e o Nadinho, sendo que o titular era o Joselias. Pelo Botafogo eu fui vice-campeão, disputando a final com o Bahia. Em 1953 cu disputei o torneio Bahia-Pernambuco, Casei na Bahia e constituí família. Morava na cidade baixa. Foi então que o Moto me convidou para voltar e eu aceitei, pois além de ganhar bem eu iria jogar na minha terra e num bom time. De 1957 até 1968 eu joguei aqui no Moto e como titular.

O ESTADO:
Mas foi aqui que você encerrou a carreira. Era hora de parar ou você sentia que ainda dava para jogar?
Bacabal: Eu vim para o Moto em plena forma. Eu tinha trinta ou trinta e um anos e estava no auge da forma técnica e física. Quando eu saí do Botafogo ainda faltavam oito meses para acabar o meu contrato e ainda havia interesse do Botafogo na renovação. Havia até uma garantia de emprego. Eu deveria me apresentar para um emprego no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem. Foi o que fiz. Quando voltei para Salvador havia um western no hotel, convidando para eu voltar ao Moto. Eu sempre fazia meus contratos com uma cláusula.

O ESTADO: Houve algum momento em que você tivesse pensado em largar tudo e ir embora?
Bacabal: Claro que houve. A crítica às vezes é destrutiva. Já pensou a gente ver companheiros atacantes perderem gols feitos, driblar todo o time adversário e chutar para fora e a crítica dizer que foi por infelicidade. Agora se a gente toma um gol, é culpado da derrota...pois foi nessas horas que eu pensei em largar tudo e ir embora. Já pensou, você sair na rua e ficar pensando que todo mundo vai te agredir? Pois eu passei noites em claro, pensando nisso. Só quem perde jogo é goleiro e treinador., já aconteceu uma vez comigo, quando o Moto Clube ganhava de 2 x 1 do Sampaio e fomos expulsos eu, o Casquinha, o Louro e o Calado. Me culparam da derrota. O Sampaio venceu por 4 x 2.

O ESTADO: Goleiro defende pênalti?
Bacabal: Não, o cobrador é quem perde. Goleiro nenhum defende pênalti. São 7 metros por 2,44 de altura e o mais que o goleiro, com os dois braços abertos consegue impedir, é apenas um metro. Sobram seis. É muito difícil para o goleiro e fácil para o cobrador. Às vezes o miserável do goleiro fica ali sozinho para tentar corrigir um erro que nem sempre é dele. O cobrador dá uma porrada e ainda tem gente que acha que o goleiro foi mole, que se fizesse isso ou aquilo defenderia o pênalti. Vai lá Tentar pegar.

O ESTADO: Durante sua vida esportiva você fez bons contratos?
Bacabal: Para a época sim. Mas para o dinheiro de hoje eles não valiam nada.

O ESTADO: Os jogadores de antigamente que não nasceram em berço de ouro, mas que ganharam algum dinheiro, por que estão em dificuldades?
Bacabal: Quando eu percebi que estava chegando a hora de parar, arranjei um emprego no Estado. Naquele tempo a gente usava até uniforme. Era a Guarda Portuária. Quando eu saía de campo, muitas vezes vinha terminar o plantão. As mesmas condições foram oferecidas para outros por políticos que tinham muita influência. Alguns não quiseram e diziam que não queriam porque terminariam o jogo muito cansados e não teriam condições de trabalhar. Alguns reclamavam muito das condições do trabalho e resolveram não aceitar. Eu aceitei e hoje ele está me servindo muito. Tenho uma faixa salarial de aproximadamente Cz$ 160.000,00 e só não vivo melhor porque a família é grande.

O ESTADO: E hoje, qual é a sua ligação com o futebol?
Bacabal: Eu estive durante 23 anos envolvido com o futebol e hoje não tenho mais ânimo para ir aos estádios, por isso só vejo jogos pela televisão. Faz três anos que não vou ao futebol. Mas não quero mais nenhuma ligação direta com o futebol.

O ESTADO: E o seu filho que hoje é centroavante do Maranhão Atlético Clube, seguiu os seus conselhos futebolísticos ou se rebelou e fez o que quis?
Bacabal: Eu acho que ele só tem a me agradecer pelo que eu fiz por ele. O que ele é hoje em dia, um grande artilheiro, deve agradecer a mim, pois ele queria ser goleiro e eu sempre fui contra. Sempre o orientei muito para ele nunca se meter com curriolas. Sempre fiz ver a ele que a imprensa merece todo respeito, mas que a gente não deve se impressionar muito com os elogios dela. Tem gente que recebe um elogio da imprensa hoje e amanhã vira a gola da camisa e sai achando que é o dono do mundo ou que é algum Pelé. A crítica é sempre construtiva, mas o jogador fica todo cheio de dedos e no jogo seguinte não joga nada. Eu sempre o aconselhei a não ouvir rádio ou ler jornais até dois dias depois do jogo. Ele começou jogando no gol. Foi então que eu o fiz mudar de ideia, dizendo-lhe que a posição é muito ingrata e que o goleiro é um miserável incompreendido. Onde o goleiro pisa, nem capim nasce. O atacante perde gols incríveis, mas o goleiro, se toma um gol que alguém considera fácil, é o fim do mundo. Até uma vez que o adverti definitivamente. Cheguei num treino e ele estava agarrando no gol (é um ótimo goleiro) eu o chamei e disse: "Se você quer jogar futebol, pare com esse negócio de pegar no gol. Se for para pegar no gol você vai ter que parar". Ele, vendo que eu falava sério, passou a treinar em outra posição. Foi quando o Calazans assumiu no São José e eu pedi para ele ser testado em outra posição. Ele entrou de centroavante e marcou cinco gols. Está lá até hoje. Você pode ver que tem 100 mil pessoas no estádio, mas quando um jogador está com a bola, só ele joga, fica à vontade, pois o público só vê defeitos no miserável do goleiro. Todos ficam torcendo por uma falha do goleiro, esperando por ela, torcendo para que o goleiro se dane. O infeliz joga bem durante oitenta e nove minutos e se no minuto seguinte falhar e tomar um gol, a culpa de tudo, e principalmente se perder o jogo, é toda dele. Mesmo que ele tenha feito milagres nos 89 minutos anteriores.

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