Bela reportagem extraída do jornal O Estado do Maranhão, de 09 de fevereiro de 1992:
As histórias que Caio conta do futebol, são ricas como sua carreia. Depois de ser dispensado do inexpressivo Madureira, do Rio, ele desembarcou em São Luís, para traçar seu caminho de títulos e vitórias. O Moto foi o ponto de partida. Para chegar Portuguesa de Desportos e sagra-se campeão mundial pelo Grêmio, em 83, foi num passo de mágica. Hoje, aos 37 anos (16/03/55), Luís Carlos Tavares Franco, o famoso Caio Turista, convive com um mundo completamente alheio à profissão que desempenhou com arte e maestria durante quase 20 anos é gerente de vendas de uma Fábrica de Pré-moldados e Derivados, no Bairro do Anil. Para ele, ser ídolo sem torcida, é indiferente, importante é que o futebol lhe reservou momentos inesquecíveis.
Como é que um jogador em plena forma, campeão do mundo, pretendido por grandes clubes do país, resolve parar de jogar? Nesta reportagem Caio explica e revela segredos de sua marcante passagem no futebol, com alfinetadas seguras naqueles que comandam o desporto maranhense. Calo assume que não soube administrar o muito dinheiro que ganhou e a precipitação de parar. "Cada um de nós tem 5 minutos de besteiras", afirma esse carioca de Madureira, casado com a maranhense Zelda dos Santos Carvalho Franco de Bacabal e pai de Rafaela, de 11 anos e Caio Rafael, de 7.
Caio começou no Botafogo, passou também pelo Madureira, Moto, Portuguesa de Desportos e Sampaio, depois de ingressar no rubro-negro, ao deixar o time gaúcho. Foi campeão em 77 pelo Moto e em 90 pelo Sampaio. Campeão da América e do Mundo pelo Grêmio, em 83. Usufruiu das maiores e melhores mordomias, em hotéis cinco estrelas de todo mundo e hoje convive em nosso meio é um privilégio dos maranhenses, ter um campeão mundial ao seu lado. Morando no bairro do Cohatrac.
Há oito anos, um mundial - o ano era o de 1983 e vestiam a camisa tricolor do Grêmio estrelas como o polêmico Renato, o tricampeão Paulo Cesar, o habilidoso Mário Sérgio e o vigoroso e habilidoso Hugo de Leon, na época em sua melhor fase. O treinador era Valdir Espinoza.
Embalados pela vitória de 2 a 1 na final da Libertadores da América contra o Peñarol, do Uruguai, os gremistas foram a Tóquio para disputar o Mundial interclube contra o Hamburgo. E voltaram com a taça na bagagem, graças a dois gols do ponta Renato na vitória também por 2 a 1. O Grimso jogou com Mazaropi, Paulo Roberto, Baidek, De Leon e Paulo Cesar Magalhães China, Osvaldo (Bonamigo), Paulo César (Caio) e Mário Sérpo, Renato e Tartis.
O Imparcial-Como foi seu início de carreira no futebol?
Caio-Comecei aos onze anos, o Bota fogo do Rio, una potencia na época. Não levei sorte e fui parar no Madureira, onde tomei o golpe de uma dispensa. Foi duro aguentar, porque era, como é até hoje, time sem expressão do Rio, mas como o futebol nos reserva lances incríveis, mais tarde Caio ganhava um título mundial pelo Grêmio.
O Imparcial-Depois de ganhar passe livre no Madureira, em 75, você foi parar onde?
Caio-Foi aí que as portas do Maranhão se abriram para mim. Fui trazido para Moto, pelo Coronel, em 1977. Nesse mesmo ano fui campeão e começou minha projeção.
O Imparcial-Nesse período, você ganhou o apelido de Calo Turista, porque passava uma semana aqui e outra no Rio. Foi em função do prestigio, que cresceu logo?
Caio-Foi coisa do Fontenelle (risos), na época, acertei uma coisa com os dirigentes e quando cheguei aqui, queriam fazer um contrato diferente. Não aceitei e votei imediatamente. Depois o Dr. Causas ligou e disse que o acordo seria cumprido. La vem Caio de novo. Assinei, fiz uns jogos e depois surgiu novo problema: o clube não quis pagar bichos. Peguei o avião e voltei ao Rio. Mais tarde tudo foi normalizado e Caio veio para ficar e ajudar o Moto.
O Imparcial-Como foi a transferências para a Portuguesa de Des portos?
Caio-Eu dei meu passe para o Mono, até para me valorizar. Aconteceu a venda, em 1979. Aqui, como todo mundo sabe, jogava de ponta-direita fui para a Lusa como ponta, mas quando cheguei lá, fui lançado no comando de ataque e dei sorte, atuei bem, fiz dois gols e ganhei a posição. Foi uma fase excelente, inclusive como artilheiro, esse ano, com 19 gols, 1 a menos do que Rubem Feijão, do Santos.
O Imparcial-Da Portuguesa para o Grêmio, até por essa grande fase, foi mais fácil?
Caio-Ajudou muito, mas fui para o Grêmio como reserva de César, um atacante de Portugal. A Portuguesa fez um empréstimo de dez meses. Com o tempo, tive uma oportunidade e ganhei a posição e dois títulos inéditos para o Rio Grande do Sul e para o Brasil campeão da América e do mundo.
Imparcial-Caio lembra desses momentos de glórias?
Caio-E uma coisa contagiante que ninguém consegue explicar. Lá em Tóquio, foi uma loucura, mas em Porto Alegre, quando o avião desceu, parece que o Esta do todo parou. A multidão tomou conta de tudo. Do aeroporto ao Olímpico, em carro aberto, nós fomos empurrados pela massa", sorrindo, chorando e comemorando o título.
O Imparcial-Título que representou muito dinheiro e fama, não?
Caio-Em dois anos de Grêmio foram quatro passaportes cheios, com pelo mundo todo . Foram títulos, troféu e um troco legal. Só nesse jogo em Tóquio passou para 54 países. A gente recorda com saudade.
O Imparcial-Quanto foi o prêmio pelo título?
Caio-Deu um dinheiro bom. Na época, o clube pagou 6 mil dólares para cada atleta. Depois fizemos um jogo no Métion ganhamos mais 3 mil dólares.
O Imparcial-Como você utilizou todo esse dinheiro?
Caio-Apliquei na compra de um apartamento lá no Sul e fiz outros investimentos aqui. Foi um período bom, de muitas mordomias, mas é aquela história, quanto mais se ganha mais se gasta, isso é natural, seu nível de vida moda automaticamente.
O Imparcial-Você lembra o time campeão?
Caio-Mazaropi, Paulo Roberto, Baidek, Hugo, De Lona e Paulo César, China, Osvaldo e Mário Sérgio, Renato Guicho, Tarcísio e Paulo César Caju, depois eu. O placar fui 200 e os gols de Renato.
O Imparcial-Como é que você se sente hoje, praticamente com a carreira encerrada, sem as mesmas mordomias daquele tempo e vendo a maioria dos seus colegas campeões bem situados na vida e outros ainda em evidência no futebol, como Renato Gaúcho, por exemplo?
Caio-O Renato é mais jovem que cu, também há outro aspecto a destacar aqui no Brasil o atleta com 30 anos já é velho para o futebol e no Maranhão, pior ainda. Teoria completamente furada e que cu condeno totalmente e cito apenas Júnior como exemplo, hoje o melhor jogador do país . Aqui as pessoas esquecem as coisas muito rapidamente e chegam ao absurdo de invadir sua intimidade e, lhe chatear e envergonhar diante da mulher, dos filhos, com piadas do tipo: "Te aposenta, velho, chega de roubar". Como o cara são ganha o bastante para ouvir tudo isso, chega um momento que você enche e decide parar.
"Hoje o Caio não é aquele da Grêmio, com dinheiro e carro do ano, mas também não é o que muitos pensam"
O Imparcial-Como é que você em plena forma, campeão mundial, cheio de prestigio, resolve trocar o Grêmio pelo Moto?
nCaio-A bola é uma coisa boa, mas cansativa. Eu, no Grêmio, ganhava muito dinheiro, tinha as melhores coisas, mas não sobrava tempo para nada. Então, com o dinheiro que tinha, montei um negócio aqui. Fiz compras de pontos e procurei investir em farmácias. Vim embora, passar férias e acompanhar a evolução do sovo ramo. Estava indo tudo muito bem, na época, achava que tudo era uma maravilha. No começo foi, mas com o tempo, se transformou em pesadelo. E am ramo que dá e tira e outra, o cara tem que ser escravo, porque abre cedo e não tem hora para fechar. Isso é todo dia. Como estava deixando o futebol por isso e também porque o troço foi degringolando, antes de cair de vez eu passei o ponto com parte do estoque. O resto foi para o interior, em Zé Doca, onde a gente tem alguma coisinha. Foi isso. Hoje o Caio não é aquele do Grêmio, com dinheiro e carro do ano, mas também não é aquele que muitos pensam estar ferrado só porque anda de ônibus.
O Imparcial-Era nesse assunto que muitos, a essas alturas, gostariam de tocar. Quer dizer, Caio bem, dinheiro no bolso, na poupança, investimentos, carro do ano, vida tranquila e estabilizada. Hoje, comparando com aquela época, você não tem nada. Como é que o Campeão analisa essa questão e se sente no momento?
Caio-Bom, é verdade que hoje não tenho o luxo que tinha antes, mas eu não sou o único. A vida é isso. Eu estava com bom dinheiro em caixa há pouco tempo e o Collor tomou tudo. Também tenho exemplos de empresários famosos que abrem falência e sobem de novo, outros não. Caio é tranquilo e um cara que nunca se entrega a nada. Quando cheguei aqui, tinha realmente um padrão de vida altíssimo, mas não estou numa pior. Hoje sou uma pessoa de confiança do meu amigo Paulo Figueiredo, aqui na Fábrica de Pre-moldados e Derivados (fica no Anil), e ganho dez vezes mais do que se estivesse no futebol. Tenho minha casa própria (no Cohatrac), com tudo dentro e vivo muito bem, claro que não dentro daquele luxo de Grémio.
O Imparcial-Mas no fundo no fundo, Caio, você tem arrependimento, inclusive de ter parado de jogar no Grêmio, não?
Caio-Não resta dúvidas. São coisas impensadas. Dizem que a gente tem 5 minutos de besteiras. Talvez foi isso que aconteceu. Mas a escolha foi minha, mesmo precipitada, pois, naquela época estava com uns 30 anos, prestes a fazer um grande contrato, inclusive quando falei da decisão, eles ficaram assustados e perguntaram se o problema era o Grêmio, por que tinha o Santos e o Palmeiras interessados no meu concurso. Era mais dinheiro, mas não pensei nisso, consciente de que o dinheiro que tinha, seria suficiente para garantir minha independência. No começo foi, mas como não tinha prática alguma, não dei conta e o negócio foi caindo.
"Se fosse hoje, com tudo que ganhei, pode contar que eu não ia ficar pobre nunca mais"
O Imparcial-Se Caio tivesse que começar tudo de novo, você teria outra fórmula de investir seu dinheiro?
Caio-Hoje eu tenho outra idéia, outra visão da vida. Então, se fosse hoje, com tudo que ganhei, pode contar que cu hảo. ia ficar pobre nunca mais. Mas a vida é boa por isso, porque tem essas histórias para se contar. Também há um detalhe: deixei o Madureira do Rio, onde não ganhava nada, para jogar no Moto, onde comecei a ganhar e pegar fama sem experiência. Depois fui para a Portuguesa e Grêmio, que são potências. Lá, tinha altos salários. Aliás, para resumir a história, de uma vez eu ganhei 9 mil dólares. Nunca tinha visto dólar. O cara fica com a cabeça a mil e sem ninguém para orientar, resulta nisso.
O Imparcial-Quando chegou aqui você procurou o Moto para jogar?
Caio-Não. Quando deixei o Grêmio, vim para o Maranhão para outro ramo. Tinha parado com bola, mas na época, com Mário Carneiro, Cassas, Ibrahim e muitos pediram, eu falei que o passe era do Grêmio, se conseguissem eu poderia jogar. O negócio foi feito e fiz um contrato para não viajar e não concentrar. Isso provocou muitas críticas, mas o pessoal, mal informado, não sabia que tinha um acordo e se o clube aceitou, Caio não tinha nada a ver com o resto.
O Imparcial-Caio então estava cumprindo uma promessa antiga, de encerrar a carreira no clube de coração, mas terminou saindo nu ma pior?
Caio-E, em parte sim. Também lhe confesso que se tivesse que iniciar na bola, não seria aqui. Houve muitas coisas de 85 para cá, comparando com os anos de 77 e 79. Hoje, no nosso futebol, o cara só é bom, só é gente, quando está jogando. Se ele se machuca não é apenas com Caio, é esquecido imediatamente, principalmente se tiver outro para a posição.
O ano passado, no Sampaio, tinha Caio e Wamberto, para o meio. E vinha atuando, pela experiência e tal, ai sofri uma contusão de joelho, um pouco séria, mas que ficaria bom com um mês. Só que tive que esperar 5 meses, porque o garoto entrou e como é um craque, todo mundo esqueceu Caio; médico, diretoria, im- prensa e torcida. Então, já que estava jo- gado às traças, decidi me encostar pelo INSS, mas enfrentei novo drama: pegar uma assinatura do presidente, da Guia de Tratamento. Fiquei dois meses pelo INSS. Foi então que o clube vendeu Wamberto para a Bélgica e precisou de Caio e aí os dirigentes souberam meu endereço e foram lá em casa, com promessa de aumento e outras vantagens. Dime que não queria mais e pedi para ficar no meu canto. Imediatamente me levaram no dr. Milon Miranda, médico do clube. Comecei o tratamento em dentro de 20 dias fiquei bom. Por que não foi feito logo que aconteceu a contusão? Depois de voltar só time e fazer dois jogos, por falta de sorte, sofri uma fratura do molar, num jogo com o Moto. Passei mais um mês e meio, quando o correto seria sair do estádio logo para um hospital, junto com o médico. Isso revolta.
O Imparcial-Em função dessa revolta e dos problemas enfrentados no Moto e Sampaio você decidiu parar definitivamente?
Caio-A idéia minha é não jogar mais, até porque estou muitíssimo bem aqui.
O Imparcial-Tem contrato com o Sampaio?
Caio-Não. O passe é deles, mas o contrato acabou 20 de dezembro.
"Acho que isso é um tremendo esquema, porque nunca vi um clube contratar 15 jogadores sem nunca ter visto jogar"
O Imparcial-Foi chamado para renovar?
Caio (risos)-Ainda não, mas se eles precisarem, eles correm la em casa, com promessas e mais promessas, mas nunca cumprem nenhuma.
O Imparcial-A essas alturas, Calo, o leitor quer saber quanto você ganha aqui na empresa?
Caio-Não tenho salário fixo. Ganho conforme a venda e como a venda é boa, ganho bem.
O Imparcial-Qual a comparação que você estabelece sobre obre o o futebol f maranhense de 77 para?
Caio-Hoje simplesmente não existe. Antes o estádio enchia e a renda aparecia. Hoje, no jogo que o público vai, o dinheiro desaparece. Isso cansou o torcedor, que não é besta e faz muito certo não ir ao futebol.
O Imparcial-Você atribui casa falta de torcedor nos estádios à Incompetência dos dirigentes?
Caio-Não só isso. Também isso, somado com o nível dos times. Aqui tudo é exagerado. Outros não fazem equipe ou trazem demais, como se ver, um Clube trazer 15 jogadores de uma vez só, muitos sem nenhuma qualidade. Até acho que isso é um tremendo esquema, porque nunca vi isso: am clube contratar tantos jogadores de uma vez, assinar contrato, pagar luvas e depois botar para fazer experiência. E mais ou menos assim que eles fazem.
O Imparcial-Qual a saída?
Caio- Botar gente nova, com idéia diferente, que não queira apenas o crescimento de sua empresa, se eleger deputado, vereador, etc. O Moto tem sede? Não tem e eu conheço o clube há uns 15 anos e nunca passou disso. E o que é pior sempre com as mesmas caras, apenas s rodízio viciado, porque nenhum tem interesse em levantar o clube. Também tem mais um problema grave: nossos dirigentes não sabem valorizar seus atletas; não sabem vender. E quando vendem os dólares somem. O torcedor vai vendo tudo isso e perde o interesse pelo futebol. Passa a não acreditar. Quer mais um exemplo? os regulamentos que eles mesmos fazem eles assinam, concordam em todos os pontos e depois, conforme a conveniência, mudam tudo de novo. Vira palhaçada e o público rejeita.
O Imparcial- Como é ser ídolo pra torcida, campeã?
Caio-Vai da cabeça de cada um. Es estou pronto para isso, porque há alguns anos venho pensando com parar. Os que param antes do tempo, tenho impressão que sentem um forte abalo, porque a presença da massa é interessante.
O Imparcial- Para encerrar, Calo Já foi expulso alguma vezes?
Caio-Uma, pelo Moto, porque não que ria viajar a Imperatriz. Eu forcei o cartão vermelho (risos).
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