terça-feira, 19 de maio de 2015

Xavier, caríssimo Peru

Matéria de Edivaldo Pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão, de 16 de Março de 1998

Página sobre a Seleção Maranhense editada no Álbum de 1954

Nos quartéis o respeito como Coronel Xavier, mas nos campos de futebol foi o nome que consagrou o “half” esquerdo mais temperamental do Maranhão. Jogador de muito potencial, com passagens pelo Moto, Maranhão Atlético Clube, Sampaio Corrêa e Seleção Maranhense, ele marcou época na década de 50.

Francisco Xavier Gomes Filho nasceu na cidade de Bequimão, interior do Estado. Viveu lá apenas alguns meses. Criado em Alcântara, só aprendeu a gostar do futebol quando veio morar em São José de Ribamar, cidade localizada a 37 km de São Luís. Até então era conhecido como Chico.

Em 1946, com 14 anos de idade, passou a ser interno da Escola Técnica Federal do Maranhão. Número 20 na chamada, por ser um “branco vermelho”, recebeu o apelido de Peru. E não adiantou se zangar. Aliás, desde então o garoto mostrava que não levava desaforo para casa. Esse apelido, no entanto, teve que engolir por toda sua carreira de jogador de futebol, que se tornou mais evidente nos campos da ETFM, hoje CEFET.

Dois anos depois Peru já fazia parte da seleção da escola. A equipe participava de jogos intercolegiais e da disputa da Segunda Divisão do Campeonato Maranhense com o nome de Tupy, cujo técnico era Jafé Mendes Nunes. Peru jogava com extrema facilidade, sendo um elo da defesa com o meio de campo. Um centromédio, que era impiedoso com os adversário. Quando estava com 18 anos o inspetor de alunos da escola, João Ribeiro Lima, o conhecido Fatiguê, técnico do Moto nas horas vagas, levou Peru para treinar com ele. Com um contrato de atleta não amador, foi empregado na Fábrica Santa Izabel, da família Aboud, para poder ganhar dois salários mínimos da época, um pelo Moto e outro pela fábrica.

Nesse ano, 1952, o Vitória do Mar recebia investimento de um grupo da Estiva e conquistava assim o primeiro e único título de sua história, o Campeonato Maranhense. Peru, que tinha se destacado na campanha do moto, recebeu convite do Sport Clube Recife, mas não aceitou a mudança de clube e cidade porque estava muito apegado a São Luís.

O jogador casou cedo, com 13 anos, em 1953. Mesmo assim não deixava de aprontar das suas. Quando o Flamengo veio jogar amistosamente contra o Moto, na segunda partida, a revanche para o rubro-negro carioca, que havia perdido o primeiro jogo no Santa Izabel por 2x0, ele novamente se envolveu em confusão. Brigou logo nos primeiros minutos com o ponta-esquerda Chico. Ambos terminaram sendo expulsos de campo.

Peru saiu do Moto em 54 para ingressar no Maranhão Atlético Club. Nesse ano recebeu a convocação para a Seleção Maranhense, que enfrentaria o Ceará. Perdendo por 1x0 aqui e lá, o Maranhão saiu da competição desclassificado.

Ele seguia sua carreira sem títulos pelo MAC. Em 56 voltou â Seleção Maranhense, do técnico Comitante, que novamente foi barrado pelo Ceará, apesar de ter vencido aqui por 4x2. No jogo de volta, perdeu no tempo normal por 1x0 e na prorrogação por 3x0.

Em 58 o Sampaio entrava no quarto ano sem títulos. O Presidente Ronald Carvalho tratou de formar um time mais técnico para ter condições de ir em busca do caneco. Dentre outras contratações, trouxe Peru. O passe, estipulado em Cr$ 25 mil, foi o mais alto da época. Quando o negócio foi fechado, um jornal estampou no dia seguinte a manchete: “O Peru mais caro do Brasil!”, fazendo alusão à contratação do jogador.

Mesmo ganhando um dos maiores salários da época, Peru não deixava seu lado temperamental, um jeito “Edmundo de ser”, como ele mesmo se auto define. Na sua estreia, contra o timaço do Ferroviário, que ia em busca do bicampeonato, o juiz Cebola validou um gol, que Peru não concordo. Não deu outra. Ele agrediu o juiz de tal maneira que a Federação Maranhense de Futebol queria excluí-lo para sempre do futebol. Isso só não aconteceu por causa da defesa do Presidente e advogado Ronald Carvalho. A pena foi de seis meses longe dos gramados.

Depois de passar esse tempo na “geladeira”, só participando de amistosos com nome trocado, Peru foi convidado para fazer um teste no América do Rio de Janeiro. “Jogador sem nenhuma assistência”, como ele mesmo conta, veio embora para São Luís em menos de u mês.

Convocado para o serviço ativo do exército ainda em 58, o comando da região Militar o proibiu de participar do futebol profissional. Assim ele encerrava a sua brilhante carreira e deixava de fazer o que mais gostava na vida, apesar do jeito agressivo de encarar jogadas e decisões de árbitros.

Um comentário:

  1. Peru , meu avó....fiquei tao feliz em encontrar um pouco da história dele na época de jogador.
    Carol

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