quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Cural, o ponta sonhador

Matéria de Edivaldo pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão.

Mesmo contra a vontade do pai, Cural acabou de transformando em um jogador de futebol. Dono de velocidade e habilidade incomuns, foi de destacando desde a época em que brincava nos campos da Crôa e do Hipopótamo, seguindo depois para o Santos que era dirigido pelo lendário radialista e jornalista Jafé Mendes Nunes. Do amador para o profissional foi um pulo. Logo estava vestindo a gloriosa camisa do Maranhão Atlético Clube e viveu um sonho de que poderia vencer como atleta no seleto futebol do Rio de Janeiro.

Cural nasceu no dia 09 de Março de 1938. Foi batizado com o nome de Raimundo Wiwecanada Gomes dos Santos. Não sabe quando, quem colocou e porque ganhou o apelido que carrega até hoje. Até dele, o Sr. Raimundo Augusto Corrêa dos Santos (falecido), mais conhecido como Manduca Santos, Inspetor de Obras Públicas e primeiro Prefeito de São José de Ribamar, e a Sra. Inês Gomes dos Santos, tiveram mais quatro filho: José Augusto “Boquinha”, Maria das Graças, Maria Luíza e Conceição.

Na época, os garotos não tinham outra alternativa para brincadeiras senão futebol. Ou isso ou ficava-se em casa, “Eu São Luis tinha muito espaço para jogar futebol e eu saía escondido”, relembra sorrindo, reforçando que o pai detestava futebol. A primeira influência que Cura teve no futebol foi o irmão José Augusto, que era conhecido como Boquinha, goleiro do Moto na década de 40. Com 14 para 15 anos de idade, Cural se juntava aos amigos Mero Preto, Gordo, Irandi, Nêgo Velho, Fernando e ia bater as peladas descalço, com bola de bexiga de bois nos campos da Crôa (formados na Beira-Mar, quando a maré estava baixa) ou então no campo do Hipopótamos (onde hoje está o clube Casino Maranhense, também na Beira-Mar). “Era uma época maravilhosa, onde prevalecia a amizade. As peladas serviam como pretextos para nos encontrarmos com os amigos”.

Maranhão Atlético Clube em 1957: em pé – Wilson (massagista), Nonato, Nunes, Cabeça, Derval, Moacir Bueno, Jaime, Rabelo “Carne Assada” e Carlos Verry (técnico); agachados – Nélio, Marianinho, Cural, Edson Moraes Rêgo, Moacir Graça, Serra “Pano de Barco” e Zuzinha

Na hora da divisão dos times, Cural era sempre escalado nas pontas (direita e esquerda). Desde cedo se destacava pela velocidade e pela habilidade com a bola. Chutava com desenvoltura tanto com a perna direita como a esquerda. Era inteligente, irreverente, debochado e alegre. Jogava porque sabia e pelo prazer que proporcionava. Em pouco tempo trocou as peladas pelo famoso time do Santos, que era do Centro de São Luis. “Não lembro quem me levou para o Santos. Se estiver cometendo alguma injustiça, peço desculpas desde já O que me recordo perfeitamente é que, de repente, lá estava eu vestindo a famosa camisa do time dirigido lendário radialista e jornalista Jafé Mendes Nunes. Do meu lado estavam Decadela, Tácito, Peru (Xavier), São, Raimundinho Camarão, Trupizupe, Cadico, César Bragança, Canhotinho e outros. Era um grupo muito bom”.

Com 17 para 18 anos de idade, Cural foi levado para o Maranhão Atlético Clube. Era o segundo reserva. Titular: Marianinho, primeiro reserva: Jaime. “Por pura sorte, o técnico atleticano da época, Carlos Verry, me escalou para jogar contra o Moto no Campeonato Estadual de 1956. Demos um baile no rubro-negro. Ganhamos por 4x1. Foi uma festa danada. Lembro-me da nossa escalação desse dia: Derval, Cabeça e Moacir Bueno; Nunes, Nonato e Maçarico; eu, Nélio, Serra, Moraes e Moacir Graça. Nesse grupo tinha também Marianinho, Jaime e Xavier (Peru). O Moto era formado por vários jogadores de outros Estados. O lateral-esquerdo era o cearense Lamparina”. Depois dessa goleada, a imprensa publicou a seguinte manchete: Cural apagou a Lamparina no Santa Isabel. Nesse mesmo ano o MAC conseguiu outra grande vitória. Dessa vez a vítima foi o Sampaio Corrêa, que perdeu por 3x0. O terceiro gol foi feito por Cural, que estava em estado de graça nesse campeonato.

Em 1957 o time jogou amistosamente contra o São Cristóvão do Rio de Janeiro, em São Luis, e mesmo perdendo por 2x1, na opinião do técnico carioca Palestine, Cural foi o nome do jogo e acabou sendo convidado a ir para o Rio de Janeiro. “Nessa época sonhei que poderia vir a jogar em um grande time no Rio de Janeiro até porque todos diziam que eu jogava bem e acabei acreditando nisso. Como não era profissional no MAC e sim ‘não-amador’, pedi ao Nicolau Duailibe Neto, então Presidente atleticano, para dar o meu liberatório para que pudesse ir ao Rio. Ganheiro liberatório e segui para a Cidade Maravilhosa, para a casa da minha irmã Conceição, cheio de sonhos e planos e com o apoio incondicional da minha mãe, que ates da viagem havia me dito que ninguém é rei na sua terra natal. Que eu precisava ousar, arriscar, para puder vencer na vida”. Um detalhe interessante é que junto com Cural, seguiu para o Rio de Janeiro nesse ano Zeca Porquinho, médio-volante do Sampaio Corrêa que mais tarde se tornou o Maranhão, atleta de destaque do Vasco da Gama (RJ) e do futebol maranhense. “Zeca Maranhão, para quem não sabe, era irmão de Cauby, que jogou no futebol maranhense defendendo o Santos, Ícaro, MAC e Ferroviário, como ponta de lança”. No Rio, Cural treinou no São Cristóvão, América e Portuguesa. O papo, segundo ele, era sempre o mesmo: volte amanhã e vamos ver como fica. Decepção inevitável. Enquanto mantinha as esperanças para assinar algum contrato como atleta profissional, ele defendia as cores do Brasil Novo, time amador do Bairro de Madureira (RJ). “Era apenas para manter a forma”.

Quando treinou no América (RJ), Cural conheceu o homem que iria mudar o rumo da sua vida: Dr. João Antero Carvalho, Procurador Geral da Justiça do Trabalho e um dos donos do Ameriquinha. “Ele gostou de mim e acabou de empregando no Ministério da Justiça do Trabalho. É evidente que acabei trocando o sonho de ser atleta profissional de futebol pela garantia do emprego seguro e real, onde acabei de aposentando no final de 1993”. Além do emprego, outro fato que fez Cural desistir do futebol foi o fato de, no período de 1958 (pelo Brasil ter levantado o primeiro Mundial, na Suécia), ter surgido no Rio muita gente boa jogando. “A prova é que em 1962, no Chile, o Brasil foi bi Mundial. Infelizmente para minha sonhada carreira no futebol, encontrei pela frente Garrincha, Pelé e companhia. Assim foi a vontade de Deus”.

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