terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Ferreirão, orgulho de Rosário


Matéria de Edivaldo Pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão, de 03 de Julho de 2000

Vitória do Mar em 1960. Em pé: Zé Rocha, Batatais, João Cinco, Ferreirão, Misael e Lelé; Agachados: Benedito, Perú, Joãozinho, Belchior e Tarzan

Quando Ferreirão se entendeu como gente, já estava envolvido com o futebol devido ao clima de rivalidade existente entre Comercial x Ferroviário, os dois principais times de Rosário (cidade de nascimento dele, localizada a 70 km de São Luís). Ele teve o prazer de vestir a camisa dos dois times, porém ganhou fama no Ferroviário e, principalmente, na Seleção Rosariense. Profissionalizou-se no Vitória do Mar Futebol Clube e encerrou a carreira aos 34 anos de idade, após uma temporada disputada pelo Nacional, da Rua do Norte. Hoje, próximo de completar 70 anos de vida, se recorda com imensa satisfação quando foi aclamado pela população como o orgulho de Rosário.

José Ferreira Neves nasceu no dia 27 de Julho de 1930. Um irmão (Domingos) e três irmãs (Maria Joaquina, Maria Raimunda e Maria Jose) completam a família cujos pais eram rosarienses, Eugênio Ferreira Neves e Ana Isabel Ferreira Neves. O apelido Ferreirão surgiu assim que ele começou a jogar futebol. Mesmo tendo apenas de 16 para 17 anos de idade, já era dono de um corpo musculoso. O fato de gostar de treinar diariamente e trabalhar em serviços pesados ajudou a desenvolver mais rapidamente o corpo atlético.

Em campo, se destacou pela coragem, garra e determinação. Chutava fortemente com a perna direita ou esquerda e cabeceava bem. Era um centroavante rompedor. Gostava de bater de ‘três’ dedos na bola. Ganhava jogadas no peito e na raça. É evidente que o garoto José Ferreira tinha que ganhar um apelido aumentativo.

COMEÇO – Quem envolveu Ferreirão no futebol foi o irmão Domingos, dois anos mais velho. Domingos era zagueiro central do Comercial. E esse terminou sendo o primeiro time oficial que Ferreirão vestiu a camisa. Com 17 para 18 anos de idade, ele trocava o Comercial pelo Ferroviário. Quando Comercial e Ferroviário anunciavam que iriam se enfrentar, a cidade de Rosário vivia o clima pelo menos de dois a três meses de antecedência. Esses times normalmente jogavam uma ou no máximo duas partidas em um ano. Fora isso, mantinham-se em atividade contra equipes da capital e região vizinhas (Morros, Axixá, São Vicente de Ferrer...). A rivalidade entre Comercial e Ferroviário era grande. Se o Comercial convidasse um time de São Luís e perdesse a partida, não demorava muito e os dirigentes do Ferroviário convidavam o mesmo time, como se quisessem tirar a dúvida entre quem era o melhor. “E se o Ferroviário vencesse, a gozação era grande pra cima dos torcedores e jogadores do Comercial”, relembra Ferreirão.

No jogo entre Comercial e Ferroviário, a rivalidade começava dentro de casa, com Domingos, zagueiro do Comercial e Ferroviário, centroavante do Ferroviário. “Começávamos a discutir a casa quando estávamos nos aprontando. Eu dizia pra ele que iria fazer dois gols e ele retrucava dizendo que me pararia de qualquer maneira. A torcida colocava mais jogo na nossa fogueira e ficava apostando quem iria levar vantagem: eu ou ele. De vez em quando ele me dava umas ‘pegadas’ fortes por trás, mas eu levei a melhor na maioria das vezes”.

DIA DE AZAR – Em 1953, a Seleção de Rosário veio jogar contra a Seleção de Codó, pelo Torneio Intermunicipal.” O jogo estava 4x3 para eles. No finalzinho do segundo tempo, Zico Preto invadiu a área e foi derrubado. Pênalti! E eu fui bater. Sempre optava por chutar forte com a perna direita, batendo de ‘três’ dedos. Quando estava caminhando para a bola, resolvi mudar e chutar de peito de pé. Acabei jogando a bola pra fora. Sofri um ano inteiro em Rosário”, recorda. Isolado, Ferreirão passou a ter uma obsessão: dar a volta por cima e fazer com que a torcida rosariense o chamasse para jogar. Se preparou para isso. Do final do ano de 1953 até meados de 1954, ele trinava sozinho a parte física: antes de sair de casa para p trabalho e no final do dia.

HERÓI – Em 1954, a Seleção de João Lisboa, formada com Rui, Batatais, Carapuça, Cacaraí, Misael, Terrível, Perú, Laixinha e outros grandes jogadores da época, foi enfrentar a Seleção de Rosário, em Rosário. “Zé Lima, dono da amplificadora de Rosário, me escalou no ar. Fui lá e disse que não ia jogar”. Ferreirão participou da preliminar em um time de garotos, como zagueiro. Vencer por 3x0. Chegou a hora do jogão entre Rosário x João Lisboa. O primeiro tempo acabou 2x0 para os visitantes. “Todo mundo veio falar comigo, me pedindo para jogar, até meu irmão. Me fez ver que eu poderia estar desperdiçando uma grande chance e quem sabe não me destacaria e iria para São Luís. Entrei no segundo tempo e fiz os dois gols que derma o empate à nossa equipe. Foi um delírio. Deixei de ser mártir para ser herói. Por onde andava, era cumprimentado e cheguei até a ganhar uns trocados por conta desse jogo. Finalmente eu me aliviei e tirei o rancor de dentro do peito, graças a Deus”.

A partir daí as coisas melhoraram para Ferreirão Titular absoluto da camisa 9 da Seleção de Rosário, foi campeão invicto do Torneio Intermunicipal de 1954, ao lado de Valdir (ou Jonas), Caboclo, Ivan, Chedão, Tica, Chagas, Ferreirinha, Luisinho (ou Mário Moreira), Luís Moura e Zico Preto. “Um grupo fechado, bom e amigo, liderado a princípio por Augusto. Marques e depois, brilhantemente, por Leôncio Rodrigues que nos conduziu ao título e me ajudou a ser o artilheiro da competição, com oito gols”.

EM SÃO LUÍS – Em 1955, Leôncio Rodrigues trouxe Ferreirão para São Luís. Foi trabalhar na estiva e assinou contrato profissional com o Vitória do Mar. Jogou no Vitória oito anos (1955 a 1963). Foi duas vezes vice-campeão Estadual pelo Vitória do Mar. Em 1955 foi artilheiro do campeonato, com oito gols. Para Ferreirão, a melhor formação do Vitória foi em 1960/61: Bastos; Neguinho, Misael, Vareta e Corrêa; João Cristóvão e Belchior; Lobinho, Ferreirão, Joãozinho e Pelezinho.

Em 1964, quando estava com 34 anos de idade, disputou o último campeonato de profissionais jogando pelo Nacional, da Ru Norte. “Eu, Joca e Jaime paramos no mesmo tempo e no mesmo time. Eu gostava tanto de futebol que tinha medo só em pensar m parar de jogar. Quando tomei a decisão, parei de vez e nem peladas bati mais. Tudo tem sua época. A minha, no futebol, ficou para trás a partir daquele dia”.

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