quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Moto Club em 1973


Uma das formações do Papão do Norte em 1973, durante a sua participação no Campeonato Brasileiro daquele ano, a primeira edição da elite disputada por um clube maranhense. Na formação abaixo, temos a seguinte escalação: em pé - Ivan, Neguinho, Irineu, Gojoba, Breno e Dé; agachados - Lima, Santana, Paraíba, Luis Augusto e Coelho


Gimico, ponta driblador e artilheiro


Matéria de Edivaldo pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão.

Pessoas que nascem com o dom de jogar futebol, Deus colocou de sobra no Maranhão. E depois concedeu a muitos o privilégio de vê-las jogar. Edemir Azevedo Gonçalves, o Gimico, é uma das estrelas que brilharam nos nossos campos de futebol. Muitos torcedores se admiravam de ver como o atleta tirava proveito de seus 1m60 de altura. Um atacante que chegava ao gol com extrema facilidade. Se tornou o grande terror dos laterais que o marcaram, pela incrível habilidade na condução da bola. Quando perguntavam em quem ele se espelhava, tinha orgulho em dizer, batendo no peito, que era nele mesmo.

A arte de jogar veio de berço. Dos quatro homens da família, Gimico, Heraldo, Edmar e César, todos sabiam jogar. Apenas Gimico e Heraldo seguiram carreira. Jogaram no Ferroviário, Moto, Sampaio, São José e outros times de fora do Estado (Gimico tem ainda quatro irmãs – Lourdenize, as gêmeas Carmem e Carmelita e Maria de Fátima).

O aprimoramento do dom de jogar de Gimico se deu nas peladas do Bairro do Apeadouro, onde ele e os irmãos nasceram. Mas foram as peladas em campo grande (oficial) – com a turma do bairro no 24º Batalhão de Caçadores – as mais marcantes, que serviram de trampolim para o ingresso na carreira profissional. Eram antecedidos de treinos durante a semana e jogos aos sábados e domingos em bairros diferentes: Maracanã, Maioba, Mata e outros próximos ao Apeadouro.

 Heraldo e Gimico do Ferrim

Já nessa época ele mostrou qualidades técnicas e muita agilidade. Porção opção própria, escolheu jogar na ponta-direita. Se sentia bem quando partia pra cima do marcador e conseguir dar dribles desconcertantes, chegando fácil ao gol. “Eu acreditava muito em mim, apesar de ser baixinho. Não tinha medo de tamanho e nem de cara feia. Partia para o drible e saia em velocidade. Quando recebia um bom lançamento, ganhava os ‘back’ na corrida e ia para o abraço”, relembra ele ainda feliz com essa habilidade, que foi sua maior marca.

Ao completar dezessete anos de idade, Gimico calçou pela primeira vez um par de chuteiras – no Santos do Bairro de Fátima. Lá, fez fama ao lado de amigos, como Louro, Chicão, Corisco, Pelado, Caburé, Neco, Cambota, Zé Bulina e o finado Bita. “Era um timezinho danado de bom, daqueles que fava gosto jogar. Passávamos a semana inteira esperando chegar o domingo para darmos show nos campos do Bairro de Fátima e de toda Ilha de São Luis. Uma época inesquecível”.

No Santos, ele foi aperfeiçoando naturalmente seu jeito de jogar. Se preparava fisicamente durante a semana, treinando muito controle de bola, cruzamentos e batidas em gol. Na prática, tudo dava certo. Por onde passou, foi artilheiro. Não tinha um chute forte, mas sabia colocar a bola no contrapé do goleiro. “Eu não usava a força e sim a inteligência”.

Heraldo já era nessa época cabeça de área profissional do Sampaio Corrêa. Sempre que podia, Gimico ia ao Estádio Santa Izabel acompanhar os jogos do irmão. Até então ele não pensava em seguir a mesma carreira.

No início de 1967, Godô, um amigo da família e funcionário da Rede Ferroviária Federal, resolveu levar Gimico para fazer uns testes no aspirante do Ferroviário Esporte Clube. Iniciava-se aí uma carreira curta, porém vitoriosa de um dos mais importantes pontas da história do futebol maranhense. Nos dois anos que passou no aspirante do Ferrim (1967/68), Gimico se destacou como artilheiro dos campeonatos estaduais. “Aprendi muito com o mestre Justino, que era técnico do aspirante do Ferroviário na época. Desenvolvi a minha autoestima e trabalhei muito o controle de bola, cruzamentos e chutes a gol. Eu e toda geração de ‘boleiros’ daquele tempo tínhamos que ter habilidade para conduzir a abola nos gramados do Santa Izabel e Nhozinho Santos, porque eles eram de ‘capim de burro’ e não de grama especializada. Tinha muitos buracos entre uma touceira e outra”.

A promoção ao quadro de profissionais do Ferroviário aconteceu em 1969. Entrou em substituição ao Neco, que estava machucado. A estreia foi contra o Maranhão Atlético Clube. Um dia que Gimico não esquece. “Eu cheguei cedo no estádio para jogar no aspirante que iria fazer a preliminar. Seu Justino me aberturou e disse que eu não ia a campo naquela tarde porque me viram beber pela manhã. Eu não entendi nada, porque não havia bebido, muito pelo contrário, estava em casa concentrado para o jogo. Depois do susto, seu Justino me disse que não iria jogar no aspirante e sim no profissional. Meu Deus! Quase cai de costa. Tremi dos pés à cabeça. Ainda bem que recebi o apoio do Esquerdinha, Nélio, Cândido e do meu irmão Heraldo. Fui para o jogo e acabei marcando um gol. Vencemos por 2x1. Foi o máximo pra mim”. Nesse ano, Gimico foi o artilheiro e revelação da competição. Em 1971, uma grande experiência foi vivida pelo craque. Jogou contra o irmão Heraldo, que trocou o Ferroviário pelo Sampaio. De um lado estava o lateral-esquerdo boliviano. Do outro, o ponta-direita do Ferrim. Páreo duro, muitas das vezes vencida por Heraldo. “Quando eu pegava na bola, Heraldo e dizia para não ir pra cima dele porque caso contrário ele seria obrigado a me acertar. Era muito difícil jogar contra ele”.

Não faltava arrumações, descoberta com a chegada de Heraldo e Célio Rodrigues, ex-lateral direito do Sampaio Corrêa, no bar de Gimico, que fica no Apeadouro. Heraldo confessa que no diálogo entre os dois, em campo ele lembra que o bicho do tricolor era maior que o da RFFSA. “No Sampaio Corrêa eu ganhava 100 cruzeiros de gratificação por vitória e Gimico ganhava 50 no Ferroviário. A minha gratificação dava para dar 50 para a nossa mãe e o restante era para a gente comprar roupas e tomar umas cervejinhas. Por isso eu dizia pra Gimico: não complica”, conta rindo Heraldo.

Ainda em 1971 Gimico se transferiu para o Moto e lá encontrou o irmão Heraldo, que havia deixado o Sampaio Corrêa. Como na adolescência, iriam jogar juntos novamente. A dupla brilhou. O Moto foi o campeão invicto do Torneio Maranhão-Pará, disputado em Belém. Gimico, um apelido que virou nome ninguém sabe porque, ganhou um apelido nessa época, “Satanás”. “Em 71, no Torneio PAxMA, lá em Belém, contra o Paysandu, o Moto perdia por 3x1 e Gimico estava no banco. Ele virou-se para o técnico Marçal e pedi para entrar porque sentia que dava para virar o jogo. Marçal não deu ouvidos. Ele insistiu várias vezes para o técnico deixa-lo entrar, até que conseguiu. Quando estava em campo, infernizou a defesa adversária e ajudou o time a virar o placar pra 4x3. Passaram a chama-lo então de Satanás”.

No início da temporada de 72, Gimico foi dispensado do Moto pelo técnico Sousa Arantes. “Ele disse que baixinho não jogava no time dele. Fui disputar o Troneio da Marinha pelo São José. No dia do jogo contra o Moto, eu infernizei a vida da defesa motense e acabei fazendo o gol da vitória e do título do São José. Pronto, lavei a alma!”.

Dai pra frente Gimico, incentivado pela família, foi abandonando o futebol. Chegou a participar de vários amistosos pelo Sampaio Corrêa em 1974 e se livrou do acidente ocorrido com o ônibus que levava o Tricolor para um amistoso em Imperatriz, que vitimou o zagueiro Paulo Espanha. “Eu havia me contundido num treino e fiquei fora dessa viagem. Dou graças a Deus até hoje por isso”. Em 1975, atendendo a um pedido da mãe, Doa Maria Azevedo, e do irmão Edmar, engenheiro civil, Gimico foi morar em Pelotas/RS. Lá, ainda treinou no E.C. Brasil. “Passaram mais de um mês querendo que eu assinasse o contrato, mas meu irmão e minha mãe não permitiram. Assim, encerrei minha carreira como profissional da bola”. Em Pelotas, Gimico aprendeu com o irmão as técnicas de trabalho com máquinas eletrônicas e se tornou um Topógrafo Nivelador. Rodou várias cidades do eixo Sul/Sudeste do país, até que retornou a São Luís por volta de 1982.

Gedeão, baixinho bom de bola


Matéria de Edivaldo pereira Biguá e Tânia Biguá, página "Onde Anda Você?", do Jornal O Estado do Maranhão.

Quem ouve falar na fama do ponteiro Gedeão, do Sampaio Corrêa, na década de 50, imaginava que era alguém de porte avantajado. Com 1,60 de altura, ele sabia tirar proveito da leveza e da velocidade, fundamentais para chegar na linha de fundo e fazer cruzamentos para os atacantes. Não era de marcar gols, porque tinha como grande característica sair da ponta-direita para apoiar os meio-campistas e atacantes mais habilidosos. Henrique Santos foi seu grande orientador nos tempos de futebol de campos e responsável por sele se tornar conhecido como “baixinho bom de bola”.

Gedeão Pereira de Matos é mais um maranhense que entrou para os anais da história do futebol como um grande atleta, principalmente pela disciplina. Assim eram os meninos do interior, que só queriam brincar para passar o tempo. Nascido no município de Icatu, desde que se mudou para São José de Ribamar, tinha nas peladas da beira da praia sua maior diversão. Com 10 anos estava com os amigos fundando o Ribamarzinho, uma espécie de 2º Divisão do Ribamar Esporte Clube.

A pequena cidade balneária ficou para trás quando ele veio para São Luis cursar o ginasial no Colégio São Luis. A bola não! Nas brincadeiras na Praça do Quartel, hoje Praça Deodoro, ele jogava com Esmagado, Canhoteiro, Denizar, Almeida, Márcio Viana Pereira. Alguns cartolas ficavam sempre por á: José Mário Santos, Clóvis Viana e Murilo Baima. Ano 1949.

Seleção Maranhense de Futebol de 1956: em pé - Gedeão, Lourival, Cabelo Duro, Gimico e Negão; agachados - Peru, Moacir Bueno, Pedro Buna, Terrível, Walber Penha, Carapuça e Carioca (massagista)

Gedeão, 14/15 anos, se deslocava para o ataque com facilidade e extrema velocidade. Logo estavam no famoso campo do Tabocal, hoje Apicum. Na escola, transferia-se para o Colégio Liceu Maranhense, disputando sua primeira Olimpíada Intercolegial (organizada pelo professor Luís Rêgo), nas modalidades de atletismo, natação e futebol. No atletismo, era um exímio velocista. Nas primeiras provas de natação de competição que se tem notícia no Maranhão, o tanque que abastecia a Fábrica Santa Isabel servia como piscina, porque tinha cerca de 30 metros de comprimento por 10 metros de largura e outros 3 metros de profundidade. Para quem estava acostumado a atravessar na enchente da mare o Canal do Vieira em São José de Ribamar, competir em provas de 30, 60, 90 metros era fácil. Foi um conquistador de medalhas. Mas o futebol de campo continuava sendo forte. Os jogos escolares estavam servindo como vitrine. M meados de 1950 ele já estavam integrando a famosa equipe do Santos, de Jafé Medes Nunes. Além de explorar sua velocidade Gedeão tinha a vantagem de ser disciplinado tecnicamente. Era do tipo que obedecia às ordens do treinador e jogava para a equipe.

Em 1952 o Santos iria enfrentar o Sampaio. Nos vestiários do Estádio Santa Izabel, Jafé deu a camisa do Sampaio para Gedeão. Ele estranhou, mas aceitou. Assim iniciava uma grande paixão, que dura até hoje. O Tricolor foi seu grande e único clube. Nessa estreia, ele marcou o gol da vitória de 1x0 contra o Santos e selou sua carreira de não-amador de clube profissional. Mesmo pedindo desculpas pela falta de memória, ele relaciona alguns nomes da época: Henrique Santos, Cacaraí, Terrível, Josafá, “Carvão de Varinha” e os goleiros Lata de Lixo e Lessa.

De 17 a 22 anos, Gedeão nunca sentou no banco de reservas. Conquistou os títulos estaduais de 1953 a 1954. Uma das maiores formações dessa época foi: Gibreu (Coveiro reserva); Levi (lateral-direito), Terrível (zagueiro-central), Elber (centro-médio), Icabora (lateral-esquerdo), Lourival (meia-direita), Henrique Santos (meia-esquerda), Gedeão (ponta-direita), Mozart Tavares (centroavante, com Neto na reserva) e Garcia (ponta-direita). Ele viveu nesse clube suas maiores alegrias. “No time todos nós éramos como uma família. O Presidente Ronald Carvalho atava como amigo e conselheiro em um gripo extremamente amador, que recebia os ‘bichos’ após cada vitória, rateando os valores entre os solteiros e casados (esses recebiam um pouco mais)”.

O craque Henrique Santos, o meia-esquerda piauiense que havia chegado em São Luís em 1948, agora um dentista de 27 anos, integrante do corpo médico do Sampaio e ainda jogador, era o maior orientador de Gedeão. Em tempo para treinar, nos jogos Henrique não tinha tanto preparo físico. Quando ia para o ataque, contava com o apoio do baixinho, que depois de conduzir a bola pela ponta e fazer o cruzamento, corria para cobrir o meio de campo e a defesa.

Em 1953, Gedeão serviu o exército. Por causa do tenente coronel Nova da Costa, vice-presidente da Federação Maranhense de Desportos, hoje FMF, não teve problemas em continuar jogando. Foi assim até 1958, quando Nova da Costa, por desentendimento, saiu da FMD e impediu os militares de participar do Campeonato Maranhense. Uma pena para um atleta que chegou a ser por suas vezes convocado para a Seleção Maranhense (1952 e 1956). Participando somente dos jogos militares, Gedeão resolveu praticar também futebol de salão no Graça Aranha Esporte Clube.